22/05/2012 atualizado às 17:46
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Executados a conta-gotas

Nos EUA, a injecção letal degenera, por vezes, em sessões de tortura. Um condenado sobreviveu para contar.

Ricardo Lourenço, correspondente nos EUA (www.expresso.pt)
15:11 Terça feira, 20 de outubro de 2009
Maca numa sala de execuções nos Estados Unidos
Maca numa sala de execuções nos Estados Unidos
Reuters

Rommel Broom sacode o corpo e pede que o matem. Os responsáveis pela execução não conseguem encontrar uma veia capaz. As seringas perfuram, repetidamente, braços, mãos e pés. 22 vezes, durante duas horas.

Minutos depois é desamarrado. Cheio de nódoas negras e em estado de choque, levanta-se e repete os 17 passos do corredor da morte, que liga a sala de execução à cela, numa imprevisível viagem de regresso.

Condenado por violar e matar uma rapariga de 14 anos, em 1984, este preso de 53 anos é o primeiro a desejar que a sentença seja aplicada. "Ele só quer ser executado de forma rápida e indolor. Nada mais", diz ao Expresso Timothy Sweeney, advogado de Romell Broom. A 30 de Novembro, um juiz decidirá.

Rommel Broom
Rommel Broom

A polémica sobre a pena de morte nos Estados Unidos é recorrente. Recentemente, no Texas, um júri fundamentou uma condenação à morte com passagens da "Bíblia". Um dos jurados disse que, em caso de dúvida, a lei bíblica deveria prevalecer sobre a lei civil.

No caso de Rommel o que se discute, apenas, é um método específico de execução, aplicado em 37 dos estados americanos. O Supremo Tribunal já o considerou "desumano" e a oitava emenda da Constituição exige que nenhum cidadão seja submetido a "castigos cruéis ou fora do comum", como recordam especialistas legais.

O Expresso contactou familiares e advogados de condenados à pena capital por injecção letal. Seguiram-se relatos dignos de um calvário.

Camarões e lata de Pepsi


Há mais de três anos, Joseph Clark passou pela mesma sala da morte, na prisão de Lucasville, no estado do Ohio. Tal como Rommel resistiu à injecção.

Clark fora condenado por duplo homicídio, em 1984. Depois de 25 anos de espera, chegara o dia da execução, no início de Maio. Acordou pelas seis da manhã, recebeu o seu confessor, reverendo Anthony Garner, leu e viu televisão. Depois, sentou-se na berma da cama e tomou a última refeição - uma travessa de camarões-tigre, asas de frango, um bife de 400 gramas e uma Pepsi.

"Às 10 horas, murmurei-lhe ao ouvido que chegara a altura", recorda ao Expresso o advogado George Pappas, seu representante legal desde 1999. Juntos, dirigiram-se à 'casa da morte'.

Lá dentro havia duas salas, uma para advogados e jornalistas, outra para familiares das vítimas. Uma grossa parede de vidro separava-as da câmara de execução.

Clark aproximou-se de um microfone e discursou um quarto de hora. Falou dos perigos das drogas, cuja dependência o teria guiado ao submundo do crime e aos assassínios de há 25 anos.

Terminada a mensagem, deitaram-no, amarraram-no e começaram a preparar o triplo cocktail de injecções (anestesia, paralisia e paragem cardíaca). Tudo estaria terminado dentro de 10 a 15 minutos.

"Meia hora depois", conta o advogado, "reparo que os pés do 'Jo' se mexiam". Continuava vivo. Seguiu-se um rebuliço, com pessoas a entrar e a sair. "Vieram falar comigo e explicaram-me que não conseguiam apanhar nenhuma veia, devido ao passado dele de toxicodependente".

'Jo' desesperava. "Isto não está a resultar. Parem!", clamava. "Levantava a cabeça e gritava. Num desses acessos de pânico, olhou-me nos olhos e pediu ajuda".

Volvida uma hora, fecharam as cortinas em redor da mesa de execução. Só se ouviam gemidos e o ruído próprio da azáfama dos técnicos. Refeitos os procedimentos e passados 40 minutos, reabriram as cortinas. Ao fim de duas horas, Joseph Clark estava finalmente morto.

3000 esperam execução


Em Maio de 2007, também no estado do Ohio, durante duas horas, Christopher Newton viveu o mesmo pesadelo. O Expresso entrevistou, ainda, Nick Trenticosta, advogado de Robert Williams, o primeiro condenado na Louisiana, desde que a pena de morte foi reinstaurada nos EUA, em 1976. Em 1983, aquele homicida viu a sua execução adiada três vezes. À distância, Trenticosta ironiza: "ao menos teve direito a quatro últimas refeições..."

"Inocência é algo que o meu cliente não teve sucesso em provar", esclarece Timothy Sweeney. "Trata-se apenas do direito a uma morte digna".

Em 2008, dos 3309 condenados à morte, só 37 foram executados - o número mais baixo desde 1994. George Pappas defende agora Mark Brown, com morte anunciada para Fevereiro. "Tenho corrido de um lado para o outro, procurando conseguir que o meu cliente tenha direito a morrer electrocutado".


Morte em três passos
São injectadas em sequência três substâncias diferentes

  • O tiopental sódico é uma anestesia geral
  • O brometo de pancurónio faz suspender a respiração
  • O cloreto de potássio provoca uma paragem cardíaca



Métodos (des)humanos
  • Execuções tão cruéis como a lapidação, citada na "Bíblia", duram até hoje, por exemplo, nos países onde vigora a sharia
  • O 'vil garrote' foi usado em Espanha até 1974 contra presos políticos
  • A guilhotina, inventada pelo médico francês Guillotin (séc. XVIII), foi vista como método 'humano', de execução. Foi usada em França até à abolição da pena de morte, em 1981
  • Métodos da Antiguidade Clássica, como a roda ou o 'touro de bronze' grego, foram recuperados e adaptados pela Inquisição. Apenas ficou de fora, por motivos óbvios, o castigo reservado pelos romanos para os escravos: a crucificação
  • Em 1995, o escritor americano Stuart Creque defendeu que o gazeamento com azoto puro é 'humano', dado que a asfixia é indolor, e não resulta da inalação de gases venenosos
  • Condenados em Nuremberga, os promotores do Holocausto foram enforcados, fez ontem 46 anos. Os que eram militares deveriam ter sido fuzilados, mas o tribunal entendeu que tinham desonrado a farda
  • Durante a II Guerra Mundial os japoneses reservavam uma "morte digna" - decapitação , pela espada - para os prisioneiros de guerra recapturados após tentativa de evasão, por, com a fuga, terem recuperado a honra militar


Texto publicado na edição do Expresso de 17 de Outubro de 2009

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