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Estado de Direito falhado

8:00 Terça feira, 3 de fevereiro de 2009

Existem os Estados falhados, e, depois, existem os Estados de Direito falhados. A Somália lidera a primeira categoria; Portugal é o campeão do segundo grupo. O nosso país já é uma democracia, mas ainda não é um Estado de Direito. Na praça pública, os nossos juízes e magistrados falam como se fossem santos intocáveis. Mas não são. Aliás, o caos da nossa justiça, visível no caso Freeport, começa logo nos interesses e guerrilhas corporativas dessas santidades impunes: juízes e magistrados.

Um facto ridículo marca o dia-a-dia da nossa justiça: os juízes e magistrados portugueses têm sindicatos. Como é óbvio, um sindicato de ministros ou de deputados seria uma ideia estapafúrdia. Ora, um sindicato de juízes é uma ideia tão absurda como um sindicato de deputados. Mas Portugal vive dentro desse absurdo. Tal como ministros e deputados, os juízes são titulares de órgãos de soberania. E a soberania não é "sindicalizável'. Isto não é matéria de opinião. É uma regra objectiva de um Estado de Direito. Que respeito podemos ter por um magistrado ou juiz que se organiza de forma sindical ameaçando fazer greve? A soberania não faz greve contra si própria, e o Estado de Direito tem de estar acima de critérios sindicais. Um juiz deve ser uma ilha, e não uma parte de um arquipélago corporativo. Não está aqui em causa o carácter pessoal dos juízes. Estou apenas a dizer que um sindicato de juízes é um elemento impróprio na orgânica institucional de uma sociedade livre.

Esta ambiência corporativa acaba por infectar todo o funcionamento da justiça. Dou três exemplos desta infecção: as progressões na carreira, o 'segredo de justiça' e a intromissão no acto legislativo por parte das corporações sindicais.

Os nossos juízes sobem na carreira de forma automática, como se fossem meros funcionários administrativos de uma Junta de Freguesia. A sua competência nunca é verdadeiramente avaliada; são apenas avaliados pelos seus pares, isto é, pelos seus parceiros de sindicato. Em relação ao sacrossanto 'segredo de justiça', começa a ser evidente uma coisa: esta estranha figura jurídica serve somente para proteger a lentidão dos magistrados e da polícia. Mais: vários agentes da justiça usam o 'segredo de justiça' para lançar fugas de informação destinadas a corroer, na praça pública, a presunção de inocência das pessoas visadas.

Mas o facto mais intrigante da justiça portuguesa é mesmo a forma como as corporações judiciais opinam sobre a feitura das leis. Que respeito podemos ter por magistrados e juízes que pressionam o poder político para legislar de uma certa maneira? Parece que os agentes da nossa justiça faltaram à lição básica da vida política de uma sociedade livre: os juízes e magistrados fazem cumprir a lei, mas não fazem a lei. Ainda nesta semana, o presidente do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) afirmou que é fundamental uma alteração legal ao nível do sigilo bancário. Meu caro presidente do STJ, o seu papel não é opinar sobre alterações legais. Se sua excelência tem tanta volúpia pelo acto legislativo, então, só tem duas coisas a fazer: demita-se da carreira de juiz e concorra à Assembleia como deputado. É que não vivemos numa república de juízes, mas numa democracia liberal.

Henrique Raposo

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Máximo
amboiva (seguir utilizador), 2 pontos (Divertido), 9:06 | Terça feira, 3 de fevereiro de 2009
Na semana passada o colunista foi o maior mas esta semana é o máximo.
Não é um qualquer neurónio criativo que consegue inventar uma democracia liberal onde os juízes estão proibidos de expressar opiniões. Ainda bem que o Henrique nos vende semanalmente o momento de boa disposição que tanta falta faz nos tempos que correm. Já me fartei de rir só de pensar na “cara” dos juízes que tiverem conhecimento da crónica. Obrigada Henrique.
 
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    Re: Máximo    Ver comentário
david77 (seguir utilizador), 1 ponto , 14:10 | Terça feira, 3 de fevereiro de 2009
    Re: Máximo    Ver comentário
amboiva (seguir utilizador), 1 ponto , 15:02 | Terça feira, 3 de fevereiro de 2009
    candidato a    Ver comentário
AntiFar (seguir utilizador), 1 ponto , 16:46 | Terça feira, 3 de fevereiro de 2009
HR enloqueceu Acusa EUA de não ser Estado Direito
Manuel Almeida (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 16:23 | Quarta feira, 4 de fevereiro de 2009
HR não tem razão mais uma vez. Portugal, de facto, não é um Estado de Direito, mas não pelas razões que HR invoca.
 
Portugal não é um Estado de Direito porque a Justiça é lenta e assimétrica (não é igual para todos). Em muitas situações é tão lenta que nunca chega sequer a actuar, sendo os casos arquivados sem julgamento sequer.

Mas obviamente que a existência de sindicatos de magistrados públicos é algo comum em todas as democracias, a começar pelos próprios Estados Unidos. Aqui fica uma notícia tirada ao acaso do Los Angeles Times (em iglês):
The county and its public attorneys union approved a contract this week that raises salaries for prosecutors, public defenders and child support lawyers to the level of the county’s administrative lawyers over the next three years.
Top public attorneys will make about $132,200 after getting raises of 4.75% the next two years and 3% the following year.
During contract negotiations, the nearly 300-member San Bernardino County Public Attorneys Assn. had protested the pay disparity by clogging the court system with a deluge of legal proceedings.

Só mesmo HR diria que os EUA não são um Estado de Direito porque os magistrados públicos tem um sindicato (union em inglês). E esse sindicato levou a efeito acções de protesto para obter aumentos de salários. E ganhou!! Os EUA devem estar a cair num perigoso caos somaliano.

HR enlouqueceu. Não se percebe o seu ódio gratuito aos EUA.
 
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Confusão de "papéis"
Pedro Lemos (seguir utilizador), 1 ponto , 9:45 | Terça feira, 3 de fevereiro de 2009
Este artigo ilustra mais um caso de confusão de "papéis" em que a sociedade portuguesa é tão pródiga... Neste caso, há juizes que se arvoram em legisladores, mas outros casos acontecem frequentemente. Neste País em que se perdeu há muito o sentido da responsabilidade e da competência, e em que a necessidade de aparecer nos media se tornou um tique vital para muita gente, a promiscuidade com as funções mediáticas têm-se revelado igualmente uma forma recorrente de diluir as responsabilidades próprias ou de endossá-las a outrém. Por isso é que o combate às más práticas se torna realmente necessário.
 
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Direitos
taralhouco (seguir utilizador), 1 ponto , 12:33 | Terça feira, 3 de fevereiro de 2009
Gosto de ter direitos mas não gosto de ter sarna e não gostaria de ter o direito de ter sarna. Infelizmente os direitos saborosos como era o Direito de Pernada estão a acabar e por este andar, além de termos o direito de pagar impostos, ainda teremos o direito de ter sarna e outros direitos do género ou piores.
 
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    Re: Direitos    Ver comentário
amboiva (seguir utilizador), 1 ponto , 15:16 | Terça feira, 3 de fevereiro de 2009
    Re: Direitos    Ver comentário
taralhouco (seguir utilizador), 1 ponto , 18:25 | Terça feira, 3 de fevereiro de 2009
Finalmente
cjours (seguir utilizador), 1 ponto , 15:14 | Terça feira, 3 de fevereiro de 2009
Finalmente! Haja alguém que coloque o dedo na ferida e fale dos reais problemas do país! O maior dos quais é, sem dúvida, a inexistência de Justiça em Portugal. O Presidente falou à pouco disso, numa cerimónia polémica, mas a imprensa anda a gastar tempo e dinheiro com suposições e alegações, em vez de se dedicar ao concreto. Por toda a gente ter medo de melindrar os juizes é que as coisas andam assim. E, convenhamos, é de crer que os juizes ainda não tenham perdoado ao PM a questão dos dois meses de férias!! Como sabemos, a vingança serve-se fria. Fria e antes das eleições...
 
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Bem e Melhor Ainda
Alfredino Cunha (seguir utilizador), 1 ponto , 15:19 | Terça feira, 3 de fevereiro de 2009
Tudo isto está certo mas sofre de parcialidade.

Se esta fosse a única corporação da sociedade portuguesa, estaríamos nós bem.

Os próprios partidos funcionam como corporações abertas apenas à representação dos interesses que os financiam.
 
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muito bem....muito bem
L M O (seguir utilizador), 1 ponto , 17:41 | Terça feira, 3 de fevereiro de 2009
artigo com coragem e vontade.

as forcas cooperativas deste paIs absorvem todo o trabalho construtivo da sociedade em geral.

sao realmente forcas negras, nada mais de que a ganancia em pessoa
 
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Justiça
paula rosado (seguir utilizador), 1 ponto , 12:48 | Quarta feira, 4 de fevereiro de 2009
Henrique Raposo tem razão quando fala no problema da justiça em Portugal. Os papéis institucionais parece que andam trocados e ninguém se lembra desta questão.
 
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