Poderia até parecer que estou desalinhado com o que é suposto gente de esquerda pensar. Não estou. Sou de esquerda porque estou sempre, estarei sempre, do lado dos oprimidos contra todas as formas de repressão. Porque a rua é do povo e ninguém é seu dono.
E quem com um pingo de decência pode hesitar ao ver estas imagens? Quando vejo as "damas de branco", com uma coragem infinita, manifestarem-se pelos seus filhos e maridos presos por razões políticas, lembro-me das Mães da Praça de Maio em Buenos Aires. Sei de que lado estou.
Quando leio as garantias de que os presos políticos são de delito comum, lembro-me de como todos as ditaduras sempre negaram aos seus opositores a dignidade de serem resistentes. Como eram acusados de sabotagem, de espionagem, de tudo menos das suas opiniões. Sei que lado estou.
Quando leio que estão a soldo de potências estrangeiras lembro-me que era isso mesmo que o Estado Novo dizia dos comunistas que prendia. E sei de que lado estou.
Quando vejo cobardes a ajudarem a polícia do regime a arrastar estas mulheres sei de que lado nunca estarei. Quando vejo gente a gritar "esta rua é de Fidel" sei quem tem de ser derrubado: quem se julga dono da rua que só pode ser de todos. Nem de Fidel nem do seu irmão Raul, que recebeu o poder como se de uma herança familiar se tratasse. É de todos. Só posso defender isto. Porque sou de esquerda, exactamente. E ainda que não fosse.
Sim, faço escolhas. Sim, tenho um lado. E nesse lado sabe-se que os opressores e os seus peões têm o cheiro inconfundível da cobardia. Seja qual for o regime que os protege. E sabe-se que a gente de coragem resiste até às últimas forças. Às vezes antes de tempo. Às vezes quase sozinha. É gente feita da mesma massa que todos os homens e mulheres que merecem, ainda que deles discordássemos, admiração e solidariedade. Seja qual for a ditadura que combatam, estas damas de branco são a minha gente.