22/05/2012 atualizado às 17:12
Página Inicial » Opinião » Henrique Raposo » Escadinha autoritária

Escadinha autoritária

Henrique Raposo
8:00 Terça feira, 31 de março de 2009

Esta é a crise dos meninos mimados. Os ocidentais viveram seis décadas de prosperidade, e agora não sabem o que fazer perante o colapso do fundo arenoso do idílio. Entre 1945 e 2008, os mimos da História incapacitaram o Ocidente para lidar com mudanças. Andamos histéricos, porque não admitimos um milímetro de mudança no nosso modo de vida.

Paira no ar uma pressa quase infantil. Toda a gente quer resolver a crise num ápice. E é inquietante ver este alvoroço. A crise tem apenas alguns meses, mas os nossos políticos afirmam que já têm a solução. Que solução é essa? Injectar dinheiro em tudo o que mexe. Com estas faraónicas injecções, os governos pretendem recolocar os seus países no 'antes' da crise. É como se quisessem acordar do pesadelo e teletransportar as pessoas para a velha vidinha de consumo desenfreado baseado no crédito bancário. Mas isso não vai suceder. Porque esse modo de vida morreu. A verdade é que nenhum político teve ainda a coragem de enfrentar a causa profunda da crise: o modo de vida assente no crédito ao preço da uva mijona.

Esta fuga para a frente revela que as nossas sociedades não toleram um mínimo de incerteza. Não aceitamos escolher entre vários futuros alternativos. Não toleramos que o idílio 'eterno' (1945-2008) dê lugar a outra coisa qualquer. Ora, esta incapacidade para encaixar a incerteza em relação ao futuro foi sempre o primeiro degrau da escadaria autoritária. O fascismo e o comunismo não nasceram do coração de alguns homens maus. Isso é uma 'estória' de embalar sem correlação com a História. As forças autoritárias do século passado nasceram, isso sim, do coração de milhões de homens normais que não suportaram a angústia da escolha numa época de crise. Fascistas e comunistas prometeram a estes homens um futuro previsível que os libertava do fardo da escolha.

A ânsia que marca o ar do nosso tempo comprova - mais uma vez - que existirão sempre pessoas sem estômago para suportar a incerteza provocada pelo acto de escolher. A besta nasce desta revolta contra a angústia que acompanha o livre arbítrio.

'Decide'

Um filme desequilibrado pode ter momentos memoráveis. É assim com o "Reino dos Céus", de Ridley Scott (agora em DVD). No meio deste épico semifalhado, a personagem de Eva Green - a princesa de Jerusalém - dardeja o espectador com este portento teológico: "O profeta diz 'Submete-te'; Jesus diz 'Decide'".

O Ocidente foi construído em redor do livre arbítrio. Mas, atenção, nem tudo são rosas nesta história. A liberdade tem um preço: a angústia da escolha. Não por acaso, o Islão foi edificado para combater essa angústia. O muçulmano não decide, submete-se; na submissão, perde liberdade mas fica sem angústias. Afinal, tomar uma decisão custa muito. Dói. Mas, meus amigos, essa dor é o preço da liberdade, e eu prefiro ser um angustiado livre. Recuso a servidão aliviada. No século passado, quando recusaram a angústia da escolha, os europeus abriram caminho à entrada de regimes políticos 'islâmicos' no coração da Europa. Cuidado, portanto, com a pressa em resolver a crise. A angústia que sentimos não vai passar com subsídios. Não se submetam ao profeta estatal.

Henrique Raposo

Palavras-chave  opinião, Dinheiro, Deus, História, mimados
Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
Dá mais trabalho do que o que vale…
AntiFar (seguir utilizador), 3 pontos (Bem Escrito), 11:44 | Terça feira, 31 de março de 2009
Entre 1945 e 2008, a História do Ocidente não foi senão uma senda de mudanças.
A crise a que o articulista se refere tem anos e não meses (http://en.wikipedia.org/w...
Os governos pretendem com a referidas ”injecções” de dinheiro colocar os seus países fora do colapso, uma vez que a liquidez reduziu catastroficamente.
O preço do dinheiro é fixado pelos parâmetros da economia mundial.
A uva mijona á mais barata porque o seu sabor é mais desagradável.
A incerteza á a essência da vida, das pessoas e das sociedades.
Não há futuros alternativos, há hipóteses alternativas no presente que o futuro sancionará.
O “idílio 'eterno' (1945-2008)” existe tão-somente na cabeça do articulista.
O primeiro degrau da escadaria autoritária aparece quando o hoje é miserável e a descrença no homem e na sociedade se instalam.
O livre arbítrio (exista ou não) não é acompanhado por nenhuma angústia. Isso é apenas um tique dos existencialistas.
De forma geral todas as religiões teístas se enformam de preceitos a que os crentes se devem submeter. De uma forma ou de outra a liberdade, numa perspectiva religiosa, está adstrita à respectiva doutrina.
O articulista simula um pavor pouco aconselhável ao raciocínio claro e metódico.
Um artigo desequilibrado saído dos mimos hodiernos. Dá mais trabalho do que o que vale…
 
 Regras da comunidade
    Re: Dá mais trabalho do que o que vale…    Ver comentário
ajotaef (seguir utilizador), 1 ponto , 12:25 | Quarta feira, 1 de abril de 2009
Liberdades
amboiva (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 11:18 | Terça feira, 31 de março de 2009
Se não foi algum profeta de serviço deve ter sido o próprio Jesus quem convenceu o Henrique de que está autorizado a ser livre.
Quem disse que os homens normais são bons? Quem normaliza o bem? É bom ter olhos azuis ou castanhos? Lula deve estar carregado de angústias, revoltas e complexos, mas ainda assim não tem dúvidas de que ter olhos azuis é mau. Quem percebe a verdade das crises sabe que o crédito bancário não foi a «causa profunda» mas sim a primeira fase do “tratamento”, a 1ª injecção de dinheiro com que os vendilhões retardaram a verdadeira crise que desde há muito estava prestes a rebentar. O Henrique diz que é um angustiado livre mas, para além de o deixarem disparar palavras à vontade desde que se obrigue a não acertar em certos assuntos, quais são as liberdades que tem? Pode escolher outro mundo, outra condição humana, outros governos, outros Profetas, outros Cristos? Podemos escolher outro corpo, outra idade, outra origem, outra época, outra vida…? Não, não podemos, e é nessa fraqueza que está o fulcro da Ilusão. Para uns, liberdade é poder escolher esquerda direita, Benfica ou Sporting, republicanos ou democratas, croquete ou pastel de nata. Outros, porque não aguentam a angústia, “decidem escolher” outro mundo e outra vida para além da morte. Onde está a diferença entre a crença, ou a submissão, do muçulmano e a do cristão? Qual é a liberdade que o Henrique escolhe? O croquete, o pastel de nata ou o paraíso?
 
 Regras da comunidade
    Re: Liberdades    Ver comentário
taralhouco (seguir utilizador), 1 ponto , 11:54 | Quarta feira, 1 de abril de 2009
    Re: Liberdades    Ver comentário
amboiva (seguir utilizador), 1 ponto , 17:27 | Quarta feira, 1 de abril de 2009
    Re: Liberdades    Ver comentário
ajotaef (seguir utilizador), 1 ponto , 12:16 | Quarta feira, 1 de abril de 2009
    Re: Liberdades    Ver comentário
amboiva (seguir utilizador), 1 ponto , 17:37 | Quarta feira, 1 de abril de 2009
Escadinha autoritária
ajotaef (seguir utilizador), 1 ponto , 12:27 | Quarta feira, 1 de abril de 2009
O fascismo e o comunismo não nasceram do coração de alguns homens maus. Isso é uma 'estória' de embalar sem correlação com a História. As forças autoritárias do século passado nasceram, isso sim, do coração de milhões de homens normais que não suportaram a angústia da escolha numa época de crise. Fascistas e comunistas prometeram a estes homens um futuro previsível que os libertava do fardo da escolha. -- Henrique Raposo
 
 Regras da comunidade
Hitler tinha angústias?
david77 (seguir utilizador), 1 ponto , 18:31 | Quarta feira, 1 de abril de 2009
A elite nazi e comunista não tinha angústias. Eram mesmo loucos e maus. Muitas pessoas angustiadas seguiram aquela gente. Mas os tipos eram mesmo loucos.

quando é que o HR escreve sobre o filme do Che?
 
 Regras da comunidade
Censura
cjours (seguir utilizador), 1 ponto , 17:25 | Sexta feira, 3 de abril de 2009
Este pessoal do Expresso a censurar artigos é pior que a PIDE, chiça!
Eu acho que devem andar todos bêbados...
 
 Regras da comunidade
Página 1 de 1   
PUB
 
Email
O Expresso no
Arquivo
PUB




PIIGS, o tanas
0:00 Sábado, 19 de maio de 2012,
Salário mínimo
0:00 Sábado, 12 de maio de 2012,
Diário progressista
0:00 Sábado, 5 de maio de 2012,
Provincianos
0:00 Sábado, 28 de abril de 2012,
Senhor K na saúde
0:00 Sábado, 21 de abril de 2012,
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
IAB