Lhasa de Sela, 32 anos, passou a infância num autocarro, em tendas de circo, a vaguear pelas veredas da fronteira americano-mexicana. Não ia à escola, não via televisão. Lia. Inventava espectáculos com as três irmãs, cantarolava e ouvia histórias do avô. Filha de pai mexicano e mãe norte-americana, deixou-se seduzir pelos cromatismos da cultura azteca, mesmo se o seu percurso de vida a levou para as ruas de São Francisco, para os bares de Montreal ou para o porto de Marselha, onde quis calcorrear as mesmas pedras pisadas pelo seu bisavô, saído do Líbano com 11 anos, escondido num cargueiro. Eterna viajante - poderá regressar a Portugal no Outono - na bagagem amontoou histórias, retratos de vida. As mesmas histórias, às vezes tristes, às vezes dramáticas, às vezes felizes, às vezes apaixonadas, que ecoam numa voz poderosa, fixada em dois discos singulares - La Llorona (1997) e The Living Road (2003) - destinados a desmentir a verdade contida numa das suas mais divertidas melodias, quando afirma que já não se fazem canções como antigamente. Talvez não, mas apenas porque as canções de Lhasa são canções de todos os tempos.
Como lhe têm corrido os concertos em Portugal?
Tem sido muito excitante. Na primeira noite, em Lisboa, estava muito nervosa e até um tanto fragilizada, porque queria falar em português, mas não confiava muito na minha capacidade para o fazer. Ao longo do espectáculo fui-me relaxando.
Na verdade contou várias histórias num português delicioso. Fala mesmo português?
Não, apenas compreendo muito bem. O que se passou é que alguém escreveu as histórias para que pudesse lê-las em português durante os espectáculos. Isto é muito importante para mim, porque contar as histórias ajuda a perceber melhor as canções. Eu sempre contei histórias. Há muitos anos que o faço. Já com o primeiro álbum fiz isso. Adoro histórias.
Considera-se uma cantora que conta histórias, ou uma contadora de histórias, que canta?
Sou uma cantora que conta histórias. Entendo-as como uma espécie de janela aberta que nos mostra muitas coisas. Quando canto as canções sinto que as pessoas imaginam mais coisas, talvez com imagens que lhes permitem inventar ainda outras imagens. Nesse sentido tudo tem corrido muito bem, até porque acho que, em Portugal, as pessoas têm uma boa relação com a música. Sinto que conseguimos entender-nos. Sempre quis vir cantar a Portugal porque penso que este país tem uma especial relação com a música triste.
Cantou um fado de Amália - "Meu Limão de Amargura" - e fê-lo de uma forma que pareceu ser natural em si cantar o fado, um género que parece ter muito a ver com a sua música...
Sim, completamente. Amália, para mim, é uma referência. As melodias são muito bonitas, as palavras também. Sinto-me mesmo bem a cantar fado.
Ouve fado regularmente?
Ouvi muito quando estava a fazer o meu primeiro álbum, La Llorona. Ouvia fado a toda a hora. Sentia-me muito apaixonada por este tipo de música. Quando comecei a cantar aquele fado estava muito emocionada e não sabia o que iria acontecer, porque nunca o tinha cantado frente a uma plateia. Ainda por cima, quando o fiz, foi logo frente a uma audiência portuguesa, o que foi muito arriscado. A emoção saiu naturalmente e de uma forma muito forte. Acho que vamos manter este fado no alinhamento dos nossos concertos.
Adoro chorar quando ouço música
No concerto de Aveiro, perto de mim estava uma jovem que chorava, chorava imenso, com cada uma das suas canções. Há muitas lágrimas por trás das suas histórias?
Sim. Especialmente as novas canções surgiram num momento muito triste da minha vida. Para mim, cantar canções tristes é como salvar a minha própria vida. Não se trata de me deixar ficar mergulhada na tristeza. É antes, pegar na tristeza e fazer algo de diferente. A música triste nunca me faz sentir triste. Pelo contrário, faz-me feliz, porque me sinto compreendida. Acho que todas as pessoas têm os seus momentos de tristeza, mas é importante conseguir empurrar essa tristeza. O meu instinto foi sempre o de tentar captar a beleza contida na tristeza, para que a tristeza não se esgote em si própria e não seja apenas uma tristeza. É por isso que, chorar, quando se ouve música, não é, em si mesmo, algo de triste. É um alívio, não é um sentimento depressivo. A depressão acontece quando não há emoção, quando há apenas sentimentos cinzentos. Adoro chorar quando ouço música. E nessas alturas não estou triste. Estou feliz.
A Lhasa é uma mulher de muitas fronteiras. Não pertence a nenhum lugar em particular e está sempre em muitos lugares. É nessa espécie de peregrinação que lhe surgem as histórias?
Cresci num ambiente muito isolado, num velho autocarro de escola. Eu, as minhas três irmãs e o meu avô viajávamos muito pelos Estados Unidos da América e pelo México. Durante muito tempo nem sequer fomos à escola. Líamos muito. Não víamos televisão. Fazíamos espectáculos para nós próprias. Os meus pais praticamente não tinham família. No entanto tínhamos histórias acerca da família, mesmo se não havia nenhum contacto familiar, porque havia muitas histórias dramáticas. Havia outras, como a que contei nos espectáculos, acerca do meu bisavô nascido no Líbano que, com 11 anos, vai parar ao porto de Marselha. Tenho muito o sentimento de que é importante sabermos de onde vimos. Talvez por isso, gosto de histórias. As histórias são o meu país. Quando as pessoas me perguntam de onde é que sou, costumo dizer que pertenço às minhas estradas. Pertenço ao local para onde se dirige a minha vida. Não sou americana, mexicana, canadiana, ou francesa. Sou uma pessoa que viveu nesses locais. Por isso, o meu país é a história da minha vida.
Sou muito impúdica
As suas canções, as histórias que conta, são muito autobiográficas?
Sim, claro. Digamos que sou muito impúdica. Gosto de me expor. Gosto de falar de culpa. Acho que as pessoas pensam sempre que têm segredos terríveis e que têm de os esconder. Acontece que esses terríveis segredos são questões muito humanas. São as coisas com as quais sempre vivemos. Então, gosto de falar disso, para mostrar que podemos rir, chorar, porque são coisas que podemos sempre partilhar.
Há uma imensa ternura nas histórias que conta, mesmo as mais dramáticas...
É verdade. Tenho uma amiga parteira que um dia me disse que quando nasceram os seus filhos, foi muito doloroso, mas quando olha para eles, não sente dor, sente amor. Com as canções passa-se o mesmo. Uma canção pode nascer da dor, mas quando se vive com ela, não se vive permanentemente em dor, vive-se com amor.
Quais são as suas referências musicais?
Quem são as pessoas que me fazem sentir muito pequenina? Há muita gente, desde logo Amália, cantores desconhecidos de vários países africanos. Depois há bandas como os Radiohead, que são muito criativos.
Como avalia a sua colaboração com os Tindersticks?
Foi fantástica. Eles são maravilhosos. Foi uma grande surpresa para mim, tanto mais que nem os conhecia. Ouvi as músicas deles e, no princípio, aquilo parecia-me muito diferente, mas quanto mais ouvia, mais me entusiasmava, até porque eles escrevem canções muito simples.
Fiquei assustada com o sucesso
Sabia que o seu primeiro álbum penetrou em Portugal quase como um segredo trocado entre amigos e passava de mão em mão, de cópia em cópia, porque não estava à venda nas lojas de discos, não passava nas rádios, nem era referido nos jornais? Quase ninguém sabia mesmo quem era Lhasa...
Bom, acho que essa é a melhor maneira de entrar. É disso que é suposto a música tratar. É fantástico que as pessoas cheguem lá, não porque sejam massacradas com mensagens para comprar este ou aquele álbum, mas porque o descobrem e querem muito tê-lo. Devia ser sempre assim. Eu sou uma cantora profissional, vivo das canções, preciso de sobreviver, mas também penso que a música viaja de formas misteriosas. É uma honra para mim saber que as pessoas queriam tanto estas músicas, que tiveram de fazer cópias. Nenhum dinheiro é mais importante que isso.
Foi-lhe difícil lidar com o sucesso do primeiro disco?
Fiquei assustada. Quando se tem uma primeira obra com tanto sucesso, há uma escolha que se tem de fazer: ou tentas repetir a fórmula, fazer mais do mesmo, ou decides continuar o teu trabalho como se nada fosse. Eu simplesmente não podia repetir. Havia ali tanta energia. Se não se acredita naquilo que se está a fazer, é impossível. A música é como um veículo e tem de me levar a algum lado. Eu sabia, por exemplo, que num novo disco queria cantar em três línguas. Tinha medo de o fazer, mas sabia que o tinha de fazer, porque eu não sou uma cantora mexicana.
É verdade que nunca cantou no México?
Nunca. Depois do Porto canto em Cartagena (na região de Múrcia, em Espanha) e será a primeira vez na minha vida que vou cantar num país de fala espanhola. Não tenho ainda nenhuma data prevista para o México, embora já tenha sido convidada uma vez, mas não foi possível ir lá. Quero muito cantar as minhas canções frente a uma audiência de fala espanhola.
Queria partir muros
Porque é que demorou tanto tempo a publicar um segundo álbum e porquê a opção pelo francês, inglês e espanhol?
Decidi-me pelas três línguas porque simplesmente as canções começaram a sair e eu sempre pensei que não iria dizer às canções que género de cantora sou. As canções são muito misteriosas para mim. Quando escrevo uma canção, é como ter um bebé, temos que cuidar dele. Por isso, escrevi canções em inglês, francês e espanhol e pensei que agora tinha de cuidar delas. Acontece, também, que, numa primeira fase, estava cansada devido aos muitos espectáculos feitos. Fui ter com as minhas irmãs e juntei-me ao circo delas durante um ano. A seguir fui para Marselha, onde apareceram a maioria das canções, embora tenha começado a escrever no circo. É engraçado, porque quando deixei Monteral questionei muito a minha carreira. Apeteceu-me desaparecer. Queria muito ser apenas uma pessoa e não uma cantora. Tinha muito aquela imagem de assentar bem os pés na terra e sujar as mãos. Quando se canta, por vezes sentimo-nos demasiado protegidos. Parece que estamos numa redoma de vidro. Eu queria partir esses muros e parti-os mesmo. Foi um tempo muito difícil. Fui para Marselha. Senti-me muito perdida. As canções que escrevi são, de facto, as canções de alguém que se sente perdido.
A Lhasa vem dos imensos territórios do Canadá e dos EUA. Sente-se bem na Europa, onde às vezes basta atravessar uma estrada para já estar noutro país, com outra cultura?
É incrível viajar na Europa. Agora em Portugal, tal como já me sucedeu em Berlim, ou Londres, eu vejo-me a dizer para mim própria que podia passar a vida aqui. Adoro estes sítios. Tenho cada vez mais amigos por aqui. Há tantas possibilidades.
Embora goste de espaçar muito a produção de cada novo disco, está já a trabalhar num novo álbum?
Não, porque estou em digressão. É tudo tão intenso, que só me preocupo em comer, dormir, descansar, para estar preparada para os espectáculos. (Depois desta entrevista a cantora só voltou a editar um novo disco, intitulado Lhasa, em 2009. Os anteriores são La Llorona, de 1997, e The Living Road, de 2003).
Nos espectáculos que tem andado a fazer com este álbum, o do Porto foi o único ao ar livre. A sua música convive melhor com o espaço fechado de um teatro?
Não sei. Com "La Llorona" tive algumas experiências fascinantes de cantar ao ar livre. Na Ilha da Reunião, cantei num lindíssimo anfiteatro junto às montanhas, debaixo das estrelas. Foi incrível. É uma das experiências mais fantásticas de toda a minha vida. Vamos fazer alguns grandes festivais na Suiça e em França. Serão espectáculos perante audiências de 30 a 40 mil pessoas. Estou curiosa, porque eu mudei. Este novo disco é mais pessoal, mais íntimo que o primeiro, que era mais assente na música popular. Um dos meus maiores sonhos seria cantar uma canção muito sensível frente a uma enorme audiência ao ar livre, e sentir que essa canção agarra as pessoas.
Os meus discos não são um objecto comercial
Porque é que quando conta as suas histórias, antes das canções, aparenta uma grande fragilidade, uma enorme timidez, mas, depois, quando começa a cantar, explode e revela uma energia tremenda, como se fosse outra pessoa?
Fui sempre assim. Não consigo explicar, mas creio que uma das razões é por gostar de cantar. Quando começo a cantar, sinto transformar-me numa coisa diferente, como se fosse um animal diferente. É como se houvesse uma descarga eléctrica. Quando paro, sou outra vez eu.
Não se limita a cantar. Também pinta, concebe as capas dos seus discos...
Comecei a pintar ao mesmo tempo que comecei a cantar, quando tinha 13 anos. Pinto, desenho, faço xilogravura, escultura. Nunca deixei de fazer isso. Quando se tratou das capas para os discos, quis que tudo aquilo se assumisse como algo de completo. Não é um objecto comercial, é uma obra. Ambiciono retirar-me por uns quatro meses, só para pintar e depois fazer uma exposição. Gostaria de ir para um local, algures no meio da Natureza, para me concentrar e poder pintar.
Quando é que se dá o momento da mudança e decide começar a fazer as suas próprias canções?
Eu trabalhava com um guitarrista, Yves Desrosiers, porque ambos gostávamos de música mexicana, música cigana, mas também Tom Waits. Eu também cantava Billie Holliday ou velhas canções mexicanas. Canções tristes. Éramos apaixonados por este tipo de música. A primeira canção que fizemos para La Llorona foi "El Pájaro", que é uma música muito ao estilo da música cigana. Pôr palavras espanholas ali, foi como juntar tudo aquilo de que gosto, porque adoro cantar canções em espanhol. Neste caso havia ainda o prazer de fazer algo de novo, algo que não existia. Imaginei que seria belíssimo sentir tudo isto numa só canção.