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É o regime, estúpido!

Henrique Raposo (www.expresso.pt)
8:00 Terça feira, 10 de novembro de 2009

Por agora, não interessa saber se Armando Vara é, ou não, corrupto. Por agora, só interessa relembrar uma coisa: o percurso de Vara. Segundo reza a lenda, Vara era 'caixa' numa agência da CGD. Excelente. Este seria um óptimo ponto de partida para uma ascensão social marcada pelo estudo e pelo trabalho dentro do próprio banco. Porém, a ascensão de Vara, de bancário a banqueiro, parece dever-se sobretudo a critérios partidários.

O guterrista Armando Vara fez todo o percurso partidário: foi deputado, secretário de Estado e ministro. Tudo ia bem até que, em 2000, Jorge Sampaio 'demitiu' Vara do cargo de ministro da Juventude. Assim que saiu do governo, Vara entrou para um cargo de chefia na CGD (director coordenador na CGD). Ao longo da sua carreira partidária, Vara adquiriu competências de alta gestão bancária? Não sabemos. Mas sabemos de uma coisa: a CGD cumpriu, mais uma vez, o seu papel de doce regaço para os boys que já não cabem nos governos. E, atenção, o melhor estava ainda por vir: em 2005, quando um amigo de Vara chegou a primeiro-ministro, Vara foi colocado na administração da CGD. Como dizia João Duque, Vara tinha (e tem) uma qualidade imprescindível no negócio bancário: "tem o n.º de telefone do sr. eng.º José Sócrates memorizado no seu telemóvel e quando lhe telefona ele atende-o". Por outras palavras, Vara foi um político do Bloco Central, e, por isso, ficou acima dos critérios que se aplicam ao comum dos mortais.

Meus caros, o verdadeiro escândalo não advém do estatuto de arguido de Vara (com a nossa justiça, até Afonso Costa se arrisca a ser arguido). O verdadeiro escândalo é este: o governo de Sócrates não devia ter colocado Vara na administração da CGD, e o Banco de Portugal devia ter reagido a essa nomeação. Não interessa aqui a - hipotética - corrupção de Vara. O homem é inocente até prova em contrário, e quem tem o fardo da prova é o Ministério Público. O que interessa aqui é a 'corrupção institucional' disto tudo. O percurso de Vara revela que os dois partidos do poder (o PSD também tem 'Armandos Vara') podem fazer tudo o que quiserem dentro do sistema político e económico. O problema não é Armando Vara per se, mas sim todo o regime. A III República está montada de forma a legitimar a promiscuidade entre a política e os negócios. É o próprio regime que transforma uma coisa 'ilegítima' - essa promiscuidade - numa coisa 'legal'. E a raiz do mal está na existência de centenas de empresas públicas ou semipúblicas, encabeçadas pela faraónica CGD. Ao contrário do que diz a ortodoxia instalada, um Estado com empresas públicas não protege o bem comum. Um Estado com empresas públicas serve apenas os interesses de quem tem os cartões partidários certos (laranja ou rosa). No fundo, a corrupção é a outra face do 'socialismo' e da 'social-democracia'.

A promiscuidade entre partidos e empresas públicas é o nó górdio da corrupção que marca a nossa vida política. Se queremos diminuir a intensidade da corrupção, então, temos de privatizar essas empresas, as esquinas onde os corruptos gostam de cochichar. E, como se vê, estas privatizações não devem obedecer a critérios económicos, mas sim a critérios de ética política: sem estas empresas no rol do Estado, os senhores dos partidos ficam sem os lugares onde é possível meter a política e os negócios na mesma cama.

Henrique Raposo

Texto publicado na edição do Expresso de 7 de Novembro de 2009

 

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Enfim, alguma lucidez na imprensa
NãoHáInocentes (seguir utilizador), 2 pontos , 12:22 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
Regozijo-me por, finalmente, alguém pôr um dedo bem espetado na ferida de onde exala o pus da corrupção moral e criminosa da sociedade portuguesa: a partidocracia. Tem toda a razão o Sr Raposo em o fazer. As máquinas partidárias são os verdadeiros cancros da nação no pós-25 de Abril. São os polvos tentaculares que agarram tudo o que se mexe, desde os centros de decisões em Bruxelas até à Casa do Povo de Gavetinhas de Esterco. São os anestesiantes do País, o Big Brother, os propagandistas, os que inventam factos, os que exploram actos, os que manipulam a opinião pública, os empresários, os trabalhadores, os funcionários, as associações, a sociedade civil. São o vómito espasmódico que ainda não parou de jorrar do Conselho da Revolução, da Assembleia Constituinte, da Constituição e de todo o edifício legislativo criado à volta dela.
Um dos dichotes mais populares da Guerra Fria era o de que "se o comunismo fosse bom, o capitalismo já o tinha comprado". Parafraseando esse dichote, na sociedade portuguesa dos nossos dias, "se a corrupção fosse má, os governos já tinham acabado com ela". Não acabaram ainda não porque a justiça não funcione (coisa que não lhes interessa nada, até a sabotam se preciso for), mas porque são os próprios mentores da corrupção quem é suposto combatê-la: os partidos políticos, que formam o governo, que formam a assembleia, que elejem o presidente.
 
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    Re: Enfim, alguma lucidez na imprensa    Ver comentário
amboiva (seguir utilizador), 1 ponto , 18:39 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
    Re: Enfim, alguma lucidez na imprensa    Ver comentário
taralhouco (seguir utilizador), 1 ponto , 11:25 | Quarta feira, 11 de novembro de 2009
    Re: Enfim, alguma lucidez na imprensa    Ver comentário
nunofon (seguir utilizador), 1 ponto , 13:56 | Quarta feira, 11 de novembro de 2009
os mesmos cânones
AntiFar (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 13:49 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
As organizações privadas regem-se pelos mesmos cânones e de forma ainda mais impune. O articulista devia indagar isso mesmo antes de responder com a fórmula mágica. Do entrelaçamento público/privado irrompem provas cabais. A ética não se instala a partir das empresas privadas ao contrário do que o artigo demagogicamente quer dar a entender. E depois... para existir corrupção tem que haver corruptor e corrompido..
 
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Exemplo magistral
Fernando Torres (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 11:15 | Quarta feira, 11 de novembro de 2009
Um retrato muito bem feito da Mamocracia..
 
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BCP
George Rupp (seguir utilizador), 1 ponto , 8:51 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
Estou parcialmente de acordo com a sua análise, excepto onde sugere a privatização da CGD. Porém, há mais um pequeno problema com a análise: o BCP é um banco privado e por que carga de água ia escolher o "caixa" Armando Vara como vice-presidente? Terá sido por masoquismo dos demais administradores e também dos accionistas? Ou terão TODOS cartão rosa?
 
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    Re: BCP    Ver comentário
nunofon (seguir utilizador), 1 ponto , 9:57 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
    Re: BCP    Ver comentário
George Rupp (seguir utilizador), 1 ponto , 10:04 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
    Re: BCP    Ver comentário
nunofon (seguir utilizador), 1 ponto , 10:44 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
    Licenciatura    Ver comentário
George Rupp (seguir utilizador), 1 ponto , 11:02 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
    Re: Licenciatura    Ver comentário
nunofon (seguir utilizador), 1 ponto , 11:39 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
    Graus académicos    Ver comentário
George Rupp (seguir utilizador), 1 ponto , 11:57 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
    Re: Graus académicos    Ver comentário
nunofon (seguir utilizador), 1 ponto , 12:09 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
    Vara    Ver comentário
George Rupp (seguir utilizador), 1 ponto , 12:16 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
    Re: Vara    Ver comentário
nunofon (seguir utilizador), 1 ponto , 12:35 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
    Pecado original    Ver comentário
George Rupp (seguir utilizador), 1 ponto , 12:56 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
    Re: Pecado original    Ver comentário
nunofon (seguir utilizador), 1 ponto , 10:55 | Quarta feira, 11 de novembro de 2009
    Re: BCP    Ver comentário
nunofon (seguir utilizador), 1 ponto , 9:58 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
    Empresas públicas    Ver comentário
George Rupp (seguir utilizador), 1 ponto , 10:07 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
    Re: Empresas públicas    Ver comentário
nunofon (seguir utilizador), 1 ponto , 10:43 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
    Ideologia    Ver comentário
George Rupp (seguir utilizador), 1 ponto , 10:56 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
    Re: Ideologia    Ver comentário
nunofon (seguir utilizador), 1 ponto , 11:40 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
    Tudo na mesma?    Ver comentário
George Rupp (seguir utilizador), 1 ponto , 11:50 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
    Re: Tudo na mesma?    Ver comentário
nunofon (seguir utilizador), 1 ponto , 12:06 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
    Nomeações políticas    Ver comentário
George Rupp (seguir utilizador), 1 ponto , 12:22 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
    Re: Nomeações políticas    Ver comentário
nunofon (seguir utilizador), 1 ponto , 12:34 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
    Fiscalização e punição    Ver comentário
George Rupp (seguir utilizador), 1 ponto , 12:48 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
    Re: Fiscalização e punição    Ver comentário
nunofon (seguir utilizador), 1 ponto , 15:08 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
e as municipais
nunofon (seguir utilizador), 1 ponto , 9:55 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
Bom texyo. Não esquecer também as empresas muncipais que servem para os senhores e senhoras dos partifdos ao nível regional terem o seu tacho. Os jornalistas nao falam disso.
 
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    Re: e as municipais    Ver comentário
vasil (seguir utilizador), 1 ponto , 10:46 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
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nunofon (seguir utilizador), 1 ponto , 11:38 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
    Re: e as municipais    Ver comentário
Tibiriçá.... (seguir utilizador), 1 ponto , 0:04 | Sábado, 5 de dezembro de 2009
Dedo na ferida!!!
costinha79 (seguir utilizador), 1 ponto , 13:09 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
A elevada promiscuidade existente entre a administração pública, os partidos e as empresas públicas estatais e municipais são um dos núcleos da corrupção nacional!!!

Actualmente os partidos não se regem por ideologias, por valores, pelo mérito nem defendem qualquer orientação programática!!!! Querem simplesmente o acesso ao poder para empregarem as suas hostes e todos os satélites que gravitam em redor!!!!

São verdadeiras máquinas empregadoras tornando as empresas públicas e municipais verdadeiros buracos financeiros!!!!!

A privatização das empresas públicas é uma das soluções do problema da corrupção permitindo ainda melhorar substancialmente a sua eficiência económica!!!!

A Justiça também desempenha um papel fulcral sendo urgente reformar o sector permitindo julgamentos céleres e eficientes eliminando parte da burocracia instalada e da falta de profissionalismo de alguns agentes judiciais!
 
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    Re: Dedo na ferida!!!    Ver comentário
Tibiriçá.... (seguir utilizador), 1 ponto , 15:49 | Terça feira, 24 de novembro de 2009
Bando de intocáveis
ameijoafresca (seguir utilizador), 1 ponto , 21:45 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
Uma teia emaranhada
de interesses tentaculares,
muita gente foi apanhada
em negócios irregulares.

Uma teia apodrecida
por negócios sucateiros
de tintura enegrecida
e interesses embusteiros.

Um universo de roubalheira
feito de concursos viciados,
é o resultado da bandalheira
de tantos valores depreciados.

É um bando de intocáveis
de tentáculos enegrecidos,
com posturas estucáveis
por materiais apodrecidos.
 
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Há Vida Para Além dos Negócios
Alfredino Cunha (seguir utilizador), 1 ponto , 22:47 | Quarta feira, 11 de novembro de 2009
De acordo: a confusão entre a lógica dos negócios e a lógica política é em si mesma uma corrupção.

Mas este tipo de corrupção não é criminosa e pode não ser sequer imoral.

Só que a corrupção portuguesa não se fica por aqui. Vai mais longe: é criminosa. Só não o é quando o crime cometido não está prudentemente previsto na lei embora de um ponto de vista ético toda a gente saiba que devia ser crime.

Mas há mais: está tudo preparado para que os corruptos nunca sejam condenados por nada. Ora a prova é quase impossível ora o processo se arrasta até prescrever.

Uma vez que nada se prova podem depois pedir indemnizações aos Estado o qual adora pagar aos amigalhaços caidos temporariamente em desgraça.
 
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    Re: Há Vida Para Além dos Negócios    Ver comentário
nunofon (seguir utilizador), 1 ponto , 10:24 | Quinta feira, 12 de novembro de 2009
    Re: Há Vida Para Além dos Negócios    Ver comentário
Tibiriçá.... (seguir utilizador), 1 ponto , 23:57 | Sexta feira, 4 de dezembro de 2009
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