José Manuel Barroso está na berlinda. Aproximam-se os dias em que o Conselho Europeu deverá renovar (ou não) o seu mandato de presidente da Comissão Europeia e o Parlamento Europeu será chamado a dar o seu assentimento. O PPE, família política de Barroso, maioritária no Parlamento, declarou-o candidato e alguns chefes de Governo socialistas saíram a seu favor: Brown, Zapatero e Sócrates. Salvo imprevisto, o Conselho Europeu mandará o nome de Barroso ao Parlamento eleito em Junho. Se o PPE aí tiver maioria como tem agora, o mandato de Barroso será renovado sem dificuldade; se a não tiver, seguir-se-ão negociações com grupos políticos da esquerda e do centro que deveriam também levar à recondução de Barroso. Mas até ao lavar dos cestos é vindima - e há quem queira tudo menos Barroso.
A Comissão Barroso é a comissão dirigida com mais profissionalismo desde a saída de Jacques Delors de Bruxelas em 1995: na forma, o Colégio de Comissários toma decisões claras; na substância, a Comissão tem feito trabalho consequente, com destaque para duas questões cruciais do futuro da Europa: energia e ambiente. Lidou bem com problemas internos e externos mais graves do que aqueles que as suas predecessoras confrontaram (a crise financeiro-económica - lançou as bases da posição do G-20 quanto a regulação - e a invasão russa da Geórgia no Verão de 2008). Além disso, enquanto Delors pilotava a Comissão a partir de posições comuns de Mitterrand e Köhl e nelas se apoiava, o eixo franco-alemão deixou praticamente de existir. Para pôr os Estados-membros de acordo, Barroso tem de negociar a 27 (e não a 12 ou a 15), sem quase nunca contar com Paris e Berlim unidos atrás de si.
Promove o interesse europeu pela defesa intransigente do mercado interno e da livre concorrência, mais difícil agora quando tentações proteccionistas abundam. Sem essa defesa a Europa ficaria muito menos rica e contaria pouco no mundo. Tal tem-lhe valido boa imprensa nórdica, britânica e da Europa de Leste e má em França, que desconfia da livre concorrência (e da moeda estável). Nada de pessoal. Não é pelos seus defeitos que Barroso é atacado mas por razão diferente. Conheci um secretário-geral do Quai d'Orsay que achava que os outros europeus deveriam dar à França primazia na União Europeia como se dá primazia aos Estados Unidos na NATO. Interrogado em Março num programa de telefonia parisiense, Jacques Delors respondeu que o próximo presidente da Comissão Europeia deveria antes de mais nada ser francês.
Se muitos franceses não querem Barroso em Bruxelas por não ser francês, há portugueses que lá não o querem por ser português. Pensando bem, não deve espantar. Somos o país que canta "Lá em cima está o tiro-liro-liro" em vez de cantar "Cá em cima está o tiro-liro-liro", que pôs o nome de "malmequer" à flor a que poderia ter chamado "bem-me-quer", que cede demais a visões de saguão e instintos de porta de serviço. Quem se saia bem lá fora não é benquisto cá em casa.
José Cutileiro