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E nosso também

José Cutileiro
8:00 Terça feira, 28 de abril de 2009

José Manuel Barroso está na berlinda. Aproximam-se os dias em que o Conselho Europeu deverá renovar (ou não) o seu mandato de presidente da Comissão Europeia e o Parlamento Europeu será chamado a dar o seu assentimento. O PPE, família política de Barroso, maioritária no Parlamento, declarou-o candidato e alguns chefes de Governo socialistas saíram a seu favor: Brown, Zapatero e Sócrates. Salvo imprevisto, o Conselho Europeu mandará o nome de Barroso ao Parlamento eleito em Junho. Se o PPE aí tiver maioria como tem agora, o mandato de Barroso será renovado sem dificuldade; se a não tiver, seguir-se-ão negociações com grupos políticos da esquerda e do centro que deveriam também levar à recondução de Barroso. Mas até ao lavar dos cestos é vindima - e há quem queira tudo menos Barroso.

A Comissão Barroso é a comissão dirigida com mais profissionalismo desde a saída de Jacques Delors de Bruxelas em 1995: na forma, o Colégio de Comissários toma decisões claras; na substância, a Comissão tem feito trabalho consequente, com destaque para duas questões cruciais do futuro da Europa: energia e ambiente. Lidou bem com problemas internos e externos mais graves do que aqueles que as suas predecessoras confrontaram (a crise financeiro-económica - lançou as bases da posição do G-20 quanto a regulação - e a invasão russa da Geórgia no Verão de 2008). Além disso, enquanto Delors pilotava a Comissão a partir de posições comuns de Mitterrand e Köhl e nelas se apoiava, o eixo franco-alemão deixou praticamente de existir. Para pôr os Estados-membros de acordo, Barroso tem de negociar a 27 (e não a 12 ou a 15), sem quase nunca contar com Paris e Berlim unidos atrás de si.

Promove o interesse europeu pela defesa intransigente do mercado interno e da livre concorrência, mais difícil agora quando tentações proteccionistas abundam. Sem essa defesa a Europa ficaria muito menos rica e contaria pouco no mundo. Tal tem-lhe valido boa imprensa nórdica, britânica e da Europa de Leste e má em França, que desconfia da livre concorrência (e da moeda estável). Nada de pessoal. Não é pelos seus defeitos que Barroso é atacado mas por razão diferente. Conheci um secretário-geral do Quai d'Orsay que achava que os outros europeus deveriam dar à França primazia na União Europeia como se dá primazia aos Estados Unidos na NATO. Interrogado em Março num programa de telefonia parisiense, Jacques Delors respondeu que o próximo presidente da Comissão Europeia deveria antes de mais nada ser francês.

Se muitos franceses não querem Barroso em Bruxelas por não ser francês, há portugueses que lá não o querem por ser português. Pensando bem, não deve espantar. Somos o país que canta "Lá em cima está o tiro-liro-liro" em vez de cantar "Cá em cima está o tiro-liro-liro", que pôs o nome de "malmequer" à flor a que poderia ter chamado "bem-me-quer", que cede demais a visões de saguão e instintos de porta de serviço. Quem se saia bem lá fora não é benquisto cá em casa.

José Cutileiro

Palavras-chave  opinião, Europa, bruxelas, PPE, Rússia, eleições
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Essa Europa é uma forma de auto-intoxicação
AntiFar (seguir utilizador), 1 ponto , 15:48 | Terça feira, 28 de abril de 2009

Para ser perverso é preciso existir antes uma verdadeira moral, uma ordem de valores. Essa ordem não existe mais... Mas, em todo caso, que a União Europeia seja uma espécie de artefacto, sim. Há muito tempo que as nomenclaturas políticas europeias são cúmplices. Para implantar a Constituição precisava-se do povo como um álibi. Até então tudo funcionava mais ou menos bem, como o euro, mas eles meteram os pés pelas mãos com a história do referendo, em vez de o fazer passar no Parlamento. Pensaram que tinham enrolado bem o povo. Mas deviam ter em conta que o momento da decisão sobre o Tratado de Maastricht também tinha sido algo bastante frágil, pelo menos na França. Porém achavam que a sociedade tinha feito progressos, estava mais integrada, civilizada, e que o "sim" ganharia. Pelo lado dos dominantes, incluindo os intelectuais e os mass media, houve um contra-senso total, porque eles cegaram com as suas ideologias do Iluminismo, do progresso, da razão. É um imenso contra-senso de uma modernidade que pretende possuir os valores e impô-los aos outros. Toda essa configuração do progresso, da técnica, da razão, da democracia e dos direitos humanos, à força de se repetir, sem mesmo se acreditar acaba por se instituir. É uma auto-intoxicação. Essa Europa é uma forma de auto-intoxicação que se tenta se projectar numa realidade. Mas a realidade não existe mais, e é aí que eles se enganam. Não há mais um terreno sólido no qual concretizar as coisas. São problemas que ultrapassam de longe a Europa, mas nesse caso particular é um bom exemplo. A Europa é apenas um subproduto dessa ordem mundial virtual.

Jean Baudrillard (1929 - 2007)
Extracto de uma entrevista
(tradução livre do português -Brasil)

 
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Reversos dos Versos
F A M (seguir utilizador), 1 ponto , 1:03 | Quinta feira, 30 de abril de 2009
Compreendo o seu comentário no que diz respeito a uma forma muito " Portuguesa" de acarinhar os seus que ocupam lugares de destaque , é quase uma maneira visceral de expirar inveja e frustração perante impossibilidades quotidianas , deste modo as análises nunca podem ser objectivas e tendem sempre a privilegiar acessórios em detrimento de essências .

Mas convém lembrar que o cargo que refere, assim como
infelizmente a maioria dos cargos das Organizações são sempre escolhas resultantes de equilibrios negociados e compromissos acertados , onde o protagonista indicado apenas surge como "a face da escolha" logo o factor mérito e nacionalidade são apenas items a "considerar"

Se os Países gostam de ver escolhas suas em lugares de destaque até porque ampliam a sua visibilidade , era interessante que os mesmos se preocupassem menos com
jogos de poderes concertados e mais com personalidades
que pelas suas caracteristicas pudessem incutir lideranças
refrescantes que contrastassem com o bafio destas nomeações.

Acha que o próximo Presidente da Comissão Europeia pode ter isso? tenha ele o nome e a nacionalidade que tiver? acha que pode ser motivador e um factor de agregação como por exemplo foi "Obama" na recente eleição para a Presidência americana?

 
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