8 de dezembro foi dia da reunião mensal do conselho de 23 governadores do Banco Central Europeu e o que saiu de "uma discussão bem viva", nas próprias palavras do seu presidente, foi um pacote verdadeiramente "expansionista" em termos de política monetária, como o caracterizou a agência financeira Markit.
Aprovado por maioria - não por unanimidade -, mas recheado de medidas que facilitam a vida aos bancos centrais dos países membros da zona euro e ao sistema bancário europeu.
Pai Natal ou Super Mário?
A oposição a um pacote tão generoso teria vindo dos representantes alemães e de outros países do Norte no BCE, segundo o Frankfurter Allgemeine Zeitung, o que é, também, referido pelo Financial Times Deutschland. Alguns comentadores alemães, críticos da "abordagem de afrouxamento em relação à inflação" por parte de Draghi, já o rebatizaram de "Pai Natal Mário", em vez de "Super Mário".
As decisões tinham, assim, todas as condições de alimentar a onda otimista entre os investidores.
Bolsas perdem 1,8%
Mas assim não sucedeu. As bolsas mundiais acabariam por ter perdas de 1,8% e o sector financeiro uma quebra ainda mais acentuada, de cerca de 2,5%. As quebras na curva destes índices são abruptas a partir do meio da conferência de imprensa promovida no final da reunião do conselho.
As bolsas afundaram-se em particular na Europa e nos Estados Unidos, as que ainda estavam abertas às horas da conferência de imprensa. O índice EuroStoxx 50 caiu 2,43% e o Bloomberg European 500 cerca de 1,7%. A bolsa italiana foi a mais massacrada - quebrou mais de 4%. Em Wall Street, o índice Dow Jones caiu 1,63% e o S&P 500 quebrou mais de 2%. As bolsas da Ásia haviam fechado antes das palavras de Mário Draghi na conferência de imprensa, mas não tinham ajudado muito. O índice MSCI Asia Apex 50 teve perdas de 0,92%. A bolsa indiana foi a mais atingida, com uma quebra de 2,3%.
Prémio de risco francês dispara
A maior devastação ocorreria na dívida soberana. O prémio de risco (spread) da dívida francesa em relação à alemã subiu mais de 20% num só dia. Uma variação colossal. O tema França é muito sensível pois se trata do segundo pilar da zona euro ainda com notação de crédito de triplo A.
Seguiu-se nas subidas, o spread para o caso da dívida italiana (que fechou em 4,42 pontos percentuais), espanhola (que fechou em 3,80 pontos percentuais) e belga (que fechou em 2,65 pontos percentuais), segundo dados da Bloomberg. Com variações de dois dígitos.
A probabilidade de incumprimento das dívidas soberanas aumentou sem apelo nem agravo, segundo dados da CMA DataVision. A maior variação ocorreu com o risco de default da dívida italiana que passou de 32,50% na abertura para 36,03% no fecho. Seguiu-se o caso espanhol: o risco saltou de 27,27% para 30,66% no mesmo período. Variações menos acentuadas observaram-se para a França, Irlanda, Portugal e Bélgica.
O prémio de risco para a dívida portuguesa subiu para 10,93 pontos percentuais e a probabilidade de incumprimento passou de 58,76% no fecho de quarta-feira para 59,97% no fecho de quinta-feira. Subidas menos acentuadas do que nos outros casos.
Um filme de uma hora de frustração
O que aconteceu para ocorrer aquela derrocada?
Tudo começou quando Mário Draghi, o presidente do BCE, começou a deslindar, em conferência de imprensa, o que não entendia pela célebre frase "outros elementos se seguirão" (que proferira no Parlamento Europeu). Repetiu, naturalmente, evidências sobre o que é a missão do banco central (algo diferente da Reserva Federal norte-americana ou do Banco de Inglaterra, sublinhou) e de como não está disposto a alinhar em truques que "contornem" o espírito daquela missão. O caldo entornou-se nos mercados da dívida e nas bolsas.
De pouco valeu a pedagogia sobre os pilares que, em seu entender, fundamentam a necessidade de um "compacto" em matéria orçamental a aprovar pelos políticos nesta cimeira europeia. Sublinhou que um deles é crítico - o de que haja constrangimentos ex ante à política que os governos da zona euro possam seguir inscritos nas "regras fundamentais".
Mas o que os investidores queriam saber, na realidade, é se o programa de compra de títulos soberanos no mercado secundário (conhecido por SMP) vai ser mais agressivo ou não nos próximos meses (de modo a liquidar a especulação que faz disparar os juros dos títulos de países como Espanha, Itália, França e Bélgica) e que novos mecanismos conjuntos o BCE e o Fundo Monetário Internacional poderiam avançar para tratar de problemas eventuais em Itália e Espanha nomeadamente. Mário Draghi frustou tudo isso.