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Década dois

A realidade virtual é uma escola de desresponsabilização.

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 5 de janeiro de 2011

Os balanços insensibilizam, tornam tudo igual. E falseiam, mostram o que alguém quer que mostrem. Mas nunca se encontra ninguém. Esta foi a década em que a noção de "alguém" se tornou puramente virtual. Como a economia. Como a política. Como as pessoas: números, contados em milhões. Dois milhões de pobres. Milhões crescentes de velhos, definidos como idosos pela imaginação da boçalidade, que se diz politicamente correcta. Se alguém um dia me chamar idosa, a única coisa que posso garantir é que leva um murro nas trombas - mesmo que o murro me mate, porque antes brava morta do que mansa idosa. Milhões e milhões de jovens, fulgurantes, no desemprego, nas capas das revistas, na droga ou nos concursos de talentos da televisão - quem não é jovem não existe. E basta ser-se jovem para existir. Esta foi a década da disseminação nas redes. Da dissimulação e do seu exacto avesso: o escancaramento. A década em que em vez de rostos únicos, insubstituíveis, nos tornámos, facebooks: uma cara para cada estação, nenhuma delas com cheiro a alfazema, mar ou lume - nenhuma delas com lágrimas. Ou rugas, escusado será dizer. A década do Photoshop. No reino do Facebook só existe o sucesso: muita acção, muitas imagens, um mínimo de palavras. Em vez da indigestão dos afectos, a espuma leve dos gostos: o mundo reduzido a listas de objectos, momentos e prazeres. Toda a gente sabe de toda a gente e ninguém sabe - nem quer saber - de ninguém. A realidade virtual é uma escola de duplicidade e desresponsabilização, obviamente fundada nos bons resultados obtidos por variados responsáveis pela "coisa pública". Generalizou-se a impressão de que quanto mais cinzento e/ou medíocre for um candidato a uma administração pública, maiores serão os seus proventos. Esta foi também a década publicitária do sexo e do respeito pelas culturas alternativas, em particular as que não dão qualquer espécie de alternativa às mulheres.

Entramos na década dois do terceiro milénio - o que não quer dizer nada. Contagem decimal. Se tivéssemos quatro dedos em cada mão, estaríamos noutro tempo - mas seríamos os mesmos seres, simultaneamente sôfregos e desapaixonados, infantis e sem inocência, deslumbrados e enfastiados. Capazes do melhor e do pior, ao mesmo tempo - capazes de tudo menos de usar esse dom que nos distingue de todos os restantes animais: o conhecimento da nossa mortalidade, a consciência de que temos uma História. O popular lema "goza o dia!" serve a cães, moscas e jacarés, que não sabem de onde vêm nem para onde vão. Para seres humanos esperar-se-ia uma recomendação como: "Lembra-te e faz-te lembrar." Somos feitos de memória e pó de estrelas. Gastamos muito do nosso tempo a desprezar a mistura faiscante de que somos feitos. Escolhemos esquecer em vez de lembrar, baixar a cabeça para o pó da terra em vez de erguer os olhos para o céu. Esquecemos, sobretudo, de nos olharmos nos olhos, o gesto que nos permite reconhecermo-nos como iguais. Animais moribundos, todos nós - os velhos dos lares "de idosos" como os jovens génios. As mulheres presas em burcas como as top-models. Os que se afadigam a dobrar a espinha ao dinheiro como os que dormem no chão sem comer. Esquecemos que morrer é deixar de ser lembrado e que a memória do cheiro e do toque dura mais do que a do olhar. Esquecemos que as coisas não podem ser possuídas por nós porque durarão muito mais do que nós. Esquecemos a singularidade da pele. Esquecemos que gozar o dia é também recordar a noite de onde ele veio e antecipar a noite para onde ele vai - as crianças sofrem de tédio porque lhes falta ainda o poderoso filme das recordações e a capacidade de concretizar sonhos.

Na década um ficámos parados como garotos a olhar para uma loja de brinquedos. As catedrais do dinheiro desabaram porque se tinham tornado virtuais sem que ninguém desse por isso. As estruturas políticas desmoronaram-se porque estavam escoradas nessa portentosa economia virtual. Gastamos horas e horas de conversa, páginas e páginas de jornais, a futurar desenvolvimentos tecnológicos que nos tornarão ainda mais virtuais e abstractos, mais distantes da vida - essa coisa chata onde se trabalha e se sua e se ama e se escolhe e se cometem erros e se chora e se ri. Essa coisa assustadora que nos impede de morrer de vez, como morrem todos os outros animais.

Nota: Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia

Texto publicado na revista Única de 30 de dezembro de 2010

 
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A VIRTUALIDADE DO FUTURO
gaivota 49 (seguir utilizador), 1 ponto , 7:11 | Quinta feira, 6 de janeiro de 2011
Sim,é verdade que hoje vivemos num mundo no início de uma virtualidade galopante em que jamais o ser Humano
se desprenderá desse frio que é o mundo virtual.

A correría a essas máquinas em que os jovens anseiam por tê-las e fazer delas o seu mundo de "afectos" é simplesmente assustador.
Este é o «progresso»,é chamado o mundo civilizado...

Já ninguém consegue passar sem o seu computador e o seu telemóvel,já se lê livros sem precisarmos de pegar neles e virar com os nossos dedos suas páginas,já não há o contacto físico,o cheiro das coisas.

A globalização faz de nós iguais sem individualização,somos autênticos robôs.
As conversas através de máquinas,sem olharmos os outros nos olhos,essa terrível abbstração que nos afasta de sentimentos humanos e proximidade.
É um futuro que aínda agora começou...
 
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    Re: A VIRTUALIDADE DO FUTURO    Ver comentário
fimdalinha (seguir utilizador), 1 ponto , 8:03 | Quinta feira, 6 de janeiro de 2011
Pedir SOCORRO!
gaivota 49 (seguir utilizador), 1 ponto , 12:31 | Quinta feira, 6 de janeiro de 2011
Hoje o Facebook tem ajudado a encontrar pessoas que não sabíam de si há anos.
Tem ajudado a desvendar crimes depois de consumados...
Mas se alguém escreve«Alerta» ninguém liga,ninguém quer saber de ninguém...
Gostei do seu livro "O perigo mora aqui"!
Espero que pela sua intiligência e intuição feminina entenda o que lhe estou a transmitir.
Um bem haja a si.
 
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