A morte de Orlando Zapata e a nova greve de fome do jornalista Guillemo Fariñas podiam ser evitáveis e existem outros caminhos para o protesto em Cuba, considerou em entrevista à Lusa um líder da oposição.
Rafael León Rodríguez, 64 anos, líder do Projeto Democrático Cubano, organização que se define como "social cristã", indicou que várias forças da oposição assinaram uma declaração conjunta onde consideraram "evitável" a morte de Zapata, e referiu que está a tentar demover Fariñas do seu protesto.
"Pensamos que é necessário respeitar as pessoas que tomaram essas decisões, pelo seu sofrimento e por problemas sérios, e quando não encararam outra possibilidade de os enfrentar a não ser terminando com a sua vida", admitiu.
Greve suicídio
Rafael Rodríguez referiu que Fariñas estava envolvido na preparação de um encontro que este sector da oposição agendou para o próximo mês.
"Agora estamos na expetativa sobre o que lhe vai acontecer. Há pouco conversámos com ele e mantinha-se em greve de fome, determinado a nem sequer ingerir água. Tentámos que alterasse a sua posição mas também devemos respeitar a sua decisão", anunciou.
Este método de protesto não o considera "lógico" por se tratar de um "género de greve, de suicídio" e também por existirem outros caminhos. "Queremos trabalhar com eles para construir uma nova nação, impulsionar a sociedade civil, defender os nossos direitos a partir de comunidade. Não estamos de acordo com greves de fome que podem terminar com uma vida. É mais importante o trabalho, a continuidade da luta pelos nossos direitos e pela liberdade civil no nosso país", explicita.
Transição pacífica
O PDC está envolvido num encontro para 9 e 10 de abril destinado a reunir diferentes opiniões, pessoas, grupos da sociedade civil para abordar a melhor forma de chegar aos cidadãos e transformar a sociedade cubana.
O dirigente do PDC manifestou ainda esperança num novo rumo que prevê para breve, e nega a perspetiva de graves turbulências no país. "Pensamos que a transição em Cuba poderá ser feita de forma pacífica. Julgamos que existe uma sociedade que está extenuada do mesmo discurso, da mesma política unilateral, de não poder decidir sobre o seu destino e sempre à espera que outros decidam por si".
E também opta por sublinhar uma nova força que está a emergir em Cuba, na sua ótica, decisiva para a evolução política de Cuba. "A última geração de jovens está esgotada e não vislumbra qualquer esperança num futuro promissor.
Situação de impasse
Num futuro onde possam destacar-se como pessoas, realizar-se como pessoas, como cidadãos. Tentam abandonar o seu país ou simplesmente enquistar-se e aguardar que algo suceda", sustenta.
É uma situação de impasse que poderá constituiu um fator decisivo para uma mudança. "É isso que queremos potenciar e pensamos que pode ser de forma pacífica porque é uma necessidade para todos, para todos os cidadãos cubanos.
Independentemente dos seus credos políticos, porque também é uma necessidade para os que acreditam no socialismo, inclusivamente para os que acreditam em parte das políticas do próprio Governo", conclui.
Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
Nota da Direcção do Expresso
O Expresso apoia e vai adoptar o novo Acordo Ortográfico. Do nosso ponto de vista, as novas normas não afectam - antes contribuem - para a clarificação da língua portuguesa.
Por outro lado, não consideramos a ideia de que a ortografia afecta a fonética, mas sim o contrário. O facto de a partir de 1911 a palavra phleugma se passar a escrever fleugma e, já depois, fleuma não trouxe alterações ao modo como é pronunciada. Assim como pharmacia ou philosophia.
O facto de a agência Lusa adoptar o Acordo, enquanto o Expresso, por razões técnicas (correctores e programas informáticos de edição) ainda não o fez, leva a que neste sítio na Internet coexistam as ortografias pré-acordo e pós-acordo.
Pedimos, pois, a compreensão dos nossos leitores.