É algo agreste e periférica a receção visual aos visitantes que desembarcam em Lisboa nas águas de onde um dia partiram as caravelas. Tanto no eixo Alcântara-Rocha do Conde de Óbidos quanto em Santa Apolónia, na primeira linha do olhar passam contentores e guindastes do porto, e só ao fundo se veem as colinas da cidade.
Será assim na próxima quarta-feira, dia 11, quando fizer escala em Alcântara o "Independence of the Seas". Com o comprimento de três campos de futebol, já exibiu o título de maior cruzeiro do mundo. Agora é o 2.º no ranking.
Dentro de três anos tudo mudará. Então, num ponto aprazível e central, deverá estar construído o novo terminal, que levará à desativação dos existentes (o que já aconteceu com a Rocha do Conde de Óbidos). O local já estava definido: Jardim do Tabaco, entre a estação de Sul-Sueste e Santa Apolónia, a poucas centenas de metros do Terreiro do Paço. O projeto, do arquiteto Carrilho da Graça, foi conhecido há uma semana.
A porta de entrada na cidade para o turismo de cruzeiro será "um grande parque arborizado", com 520 metros de comprimento e uma largura entre 90 e 120 metros. No total, a área de intervenção tem 7,8 hectares. O júri, por escolha unânime, destaca a "escala e leveza do edifício" e a exaltação da "memória" do local, através da "conservação da estrutura da doca existente".
O "espaço verde de referência" funcionará como um grande parque ribeirinho, em jeito de boulevard. Uma aproximação repousante a Lisboa, que começa praticamente logo à saída do terminal: o espaço liberto possibilita um sistema de vistas que deixa a descoberto, na encosta de Alfama, o mosteiro de São Vicente de Fora ou o Panteão Nacional.
O parque urbano e o edifício estarão, devido à sazonalidade do setor, "programáveis" para outras atividades: exposições, ciclos de moda e cinema, concertos...
Para o terminal, da responsabilidade da Administração do Porto de Lisboa, estima-se um custo de €25,5 milhões - a somar aos €53,7 milhões para reabilitação e reforço do cais, em curso e a concluir em fevereiro de 2011.
A intervenção estrutural justifica-se pela necessidade de receber paquetes cada vez maiores. Num setor em expansão (ver infografia), não é somente o número de pessoas que aumenta: os navios são cada vez maiores. De 1998 a 2008, o número médio de passageiros por escala em Lisboa mais do que duplicou (1323 contra 624). Ao longo deste ano, em todo o mundo, serão lançados 16 embarcações deste tipo: seis têm mais de 300 metros.
São estes gigantescos hotéis flutuantes que a partir de 2013 irão atracar no coração de Lisboa.
A nova pala
Após a obra de Siza Vieira para a Expo-98, Lisboa terá uma segunda pala à beira-rio. Assim parece quando se mira a cobertura do edifício, que Carrilho da Graça define como "uma concha". E se é "uma mão aberta" para acolher turistas, sê-lo-á também para os lisboetas, que podem usufruir do miradouro (90 metros de comprimento) e assistir a espetáculos no anfiteatro.
Texto publicado na edição do Expresso de 7 de agosto de 2010