Inferno
Cristiano Ronaldo
Saio para a rua e descubro que a cara de Ronaldo está em todos os jornais: um rosto vulgar, adiposo, deslumbrado - e o cabelo em forma de crista galinácea, uma agressão estética que faz sucesso entre os lusitanos. Parece que o mundo andou a discutir seriamente se Ronaldo era o melhor jogador de futebol. E respondeu que sim. A ideia já é suficientemente infantil para merecer comentário: centenas de adultos, mergulhados em reflexão aturada, em busca das chuteiras geniais.
Mas o pior veio a seguir: páginas e debates com declarações embaraçosamente homoeróticas. São as pernas de Ronaldo. O tronco. A elegância. Não sei se alguém falou dos mamilos, mas é possível. Verdade que o futebol sempre serviu para isto: para que os homens pudessem expressar as suas pulsões homossexuais sem sentimento de culpa. Só assim é possível explicar a paixão masculina por rapazes de calções curtos, a correrem pelo campo e, em caso de golo, a abraçarem-se e a acariciarem-se com os seus corpos suados.
Com Ronaldo, Portugal voltou a relembrar a natureza "gay" do futebol. Mas também lembrou outro aspecto da história pátria: a forma como nacionalizamos feitos individuais para efeitos de propaganda patriótica. Durante 48 anos, não houve atleta, cantor ou artista que a ditadura não tenha usado como símbolo colectivo.
Veio a democracia. Mas, com ela, não veio a atitude saudável de conceder aos indivíduos o que apenas lhes pertence por talento, sorte ou trabalho. O 25 de Abril, pelos vistos, não passou por aqui.
Purgatório
Barack Obama
Obama começa a sua aventura com expectativas que não são deste mundo. Onde é que eu já vi este filme? Precisamente: em 1997. Blair era o rosto da "mudança". Deu no que deu. Sem falar de outros salvadores que não são do meu tempo, como Jimmy Carter, que durou um miserável mandato.
Não desejo igual sorte a Obama e, mais, tenho certa simpatia pelo homem. Obama entendeu, e entendeu bem, que a sua vitória não o autorizava a refundar a América com os delírios radicais da praxe. Os americanos estavam cansados de Bush; mas não estavam cansados de um certo "pragmatismo" que faz parte da identidade nativa. Obama agiu em conformidade. Facto: a Energia ou a Educação, por exemplo, foram parar a mãos reconhecidamente "liberais". Mas nas pastas pesadas, como a Segurança, Obama enxotou a ideologia e optou, sensatamente, por uma certa continuidade do segundo mandato de Bush. Que o mesmo é dizer: retirar gradualmente do Iraque; não perder o Afeganistão; abrir os olhos para o Paquistão e para o Irão.
E a Economia? Os especialistas falam de um retorno a Roosevelt e à despesa federal maciça como alavanca da economia. Duvido. Obama parece propor, na verdade, uma engenhosa mistura de Roosevelt com Reagan: despesa federal, sim, mas sem esquecer um corte nos impostos para famílias e empresas como forma de garantir o consumo e o investimento. Será que chega?
Não perca a resposta nos próximos capítulos.
Paraíso
Chesley B. Sullenberger
Recebo um e-mail do meu amigo Nelson Ascher, um excelente poeta e ensaísta brasileiro, que sublinha a ironia: a presidência Bush iniciou-se verdadeiramente em 2001, quando dois aviões derrubaram as Torres Gémeas em Nova Iorque. Terminou agora, também em Nova Iorque, quando um piloto americano conseguiu aterrar de emergência em pleno rio Hudson, salvando a vida de 155 pessoas. Em 2001, o mundo começou com morte. Em 2009, terminou com vida. Na mesma cidade. Com o mesmo meio de transporte. Se me permitem o momento místico, eu diria que Deus está a enviar-nos um sinal.
Mas não é preciso invocar o divino para entender o humano: o terrorismo islâmico, que definiu a presidência Bush no melhor e no pior, ama o martírio, a destruição e a selvajaria como forma de derrotar o Ocidente infiel e idólatra; nós, lamentavelmente, somos como o capitão Chesley B. Sullenberger III: preferimos a vida e estamos dispostos a actos heróicos para a salvar. Aliás, não apenas o capitão Sullenberger. Nos dias imediatamente seguintes à proeza, li as confissões dos passageiros e notei que todos eles, no momento agónico em que o fim era certo, dedicavam os seus últimos pensamentos para os seus vivos: pais, mães, filhos. Amigos.
Sim, Bush pode ter feito merda que chegasse. Mas nos últimos oito anos, nunca duvidei de que lado ele estava. E, já agora, de que lado eu estava: do lado dos vivos e da vida. Só pensa em 72 mulheres paradisíacas quem, na verdade, é incapaz de amar uma que seja.