Como é diferente a vista do outro lado do mar. O diário New York Times, sobrevoando a crise europeia com a tranquilidade de quem sabe que o banco central do seu país, quando é preciso, faz transferências financeiras entre os estados mais ricos e os mais pobres, nota perplexo a atitude atual dos bancos europeus. Como é sabido, eles ficaram com problemas por investirem muito dinheiro em dívida soberana, ou seja, nas obrigações emitidas pelos estados europeus. Essas obrigações, antes consideradas absolutamente seguras, passaram de repente a envolver enorme risco -- em parte (na economia as coisas dão a volta, de facto) por causa do dinheiro que esses estados investiram para salvar os bancos europeus a partir de 2008. Bom, há umas semanas o Banco Central Europeu disponibilizou uns 500 mil milhões de euros aos bancos, a um juro muito baixo. Os bancos alambazaram-se. E no que foram investir essa montanha fresca de dinheiro? Em dívida soberana. Parece paradoxal, mas há que levar em conta dois factores. Um, o financiamento dos bancos pelo BCE teve justamente como objectivo, em parte, eles comprarem dívida aos países em crise. O outro factor, ainda mais decisivo, é que se trata de uma aposta com recompensas potencialmente muito elevadas. Usar financiamento obtido a juros de um por cento para comprar obrigações com juros de sete, dez, ou mesmo catorze por cento (dívida portuguesa, por exemplo) pode ser um óptimo investimento. Isto, claro, se os Estados vierem mesmo a pagar. O juro só é alto por a confiança ser baixa. Mas o que é a vida -- ou pelo menos, a vida financeira -- sem um ligeiro frisson?