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Colmeia de hipocondríacos

Henrique Raposo
8:00 Terça feira, 5 de maio de 2009

Há quem diga que vivemos tempos ímpios. Não concordo. Nas actuais narrativas ocidentais, encontramos sempre desejos apocalípticos. A narrativa que controla a maneira como os ocidentais vêem o mundo - o 'aquecimento global' - necessita de uma permanente ameaça bíblica: o dilúvio provocado pelo degelo do Árctico. Depois, a narrativa que controla a forma como os ocidentais olham para o interior das suas próprias sociedades - a 'saúde pública' - emite constantes alertas apocalípticos, tal como aquele que foi lançado esta semana a propósito da gripe suína. Ao que parece, no cabaz dos apocalipses televisivos, há sempre um vírus capaz de dizimar as populações mais bem alimentadas e medicadas da história. Se isto não é religioso, é o quê?

As nossas sociedades não toleram a existência de Deus ou de qualquer noção de Ética transcendente. Cristo e Kant encostaram às boxes. A imanência do corpo passou a ser o único templo possível. É por isso que a doença é o centro vital das nossas sociedades, tal como o pecado era o centro das sociedades do antigamente. As pessoas queriam salvar a alma do pecado; hoje querem salvar o corpo da doença. O Ocidente era uma civilização de pecadores; agora é uma colmeia de hipocondríacos. E o exemplo português ilustra bem esta metamorfose. Algures no século XIX, o governo de Lisboa, alegando evidentes razões sanitárias, decidiu que os mortos não podiam ser enterrados nas igrejas. O povo protestou. A fé estava acima da saúde. Hoje, na ausência de Deus, o povo entrega-se à saúde, e derruba ministros, porque quer um hospital à porta de casa. O hospital, aliás, é a nova igreja. Em 2009, o povo visita o médico tal como visitava o padre em 1909.

Esta histeria em redor das gripes apocalípticas é apenas o zénite de algo que existe todos os dias. O nosso quotidiano é controlado por um fascismo hipocondríaco. Não podemos fumar. Não podemos comer pão com sal. Temos de fazer desporto. Só podemos ter um parceiro sexual. Nesta atmosfera hipocondríaca, a doença é vista como uma consequência de maus hábitos e não como uma condição normal. De forma incompreensível, as nossas sociedades assentam no pressuposto absurdo de que a doença é uma escolha pessoal e não uma inevitabilidade biológica. As abelhinhas hipocondríacas vivem na ilusão de que o monogâmico-comedor-de-saladas não apanha doenças.

No campeonato da fé, sou do Belenenses, isto é, sou inofensivo. Sou agnóstico. Não tiro senha na barraquinha teológica. Não participo em fezadas monoteístas. Mas, tendo em conta a penumbra apocalíptica que paira por aí, apetece-me dizer que a malta devia regressar às igrejas. Se querem rezar, então rezem como deve ser: com padres e não com médicos.

Droit

Em 'O que é o Ocidente?' (Gradiva), Roger-Pol Droit apresenta a tese certa. Em primeiro lugar, Droit afirma que o termo 'Ocidente' já não descreve apenas a comunidade transatlântica. O Ocidente alargou-se a outros países (Japão, Coreia do Sul, etc.), que partilham uma 'direcção de espírito' com a Europa e EUA. Em segundo lugar, Droit critica os relativistas que negam a existência dos valores universais defendidos pelo Ocidente.

Henrique Raposo  

Palavras-chave  opinião, , padres, Saúde, médicos
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O Novo Terrorista
amboiva (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 9:20 | Terça feira, 5 de maio de 2009
O mau terrorista rebenta bombas, o bom terrorista repete ameaças bíblicas, o novo terrorista transforma-nos em abelhas.
O cronista está a aproximar-se perigosamente da verdade mas tem o cuidado de manter a confusão baralhando padres, médicos, igrejas, hospitais, doenças e pecados, de modo a que as abelhas não se assustem muito e continuem a produzir mel. Ao contrário do que foi dito as pessoas não ligavam à alma e interessavam-se pela saúde do corpo ainda mais que hoje, só que para além da ajuda divina pouco ou nada tinham para tratar dele. Para maior confusão o autor também preferiu ignorar que a nova igreja da saúde está a ser edificada no terreno religioso da finança, e fingiu não saber que os melhores padres para rezar já não são os doutores de teologia mas sim os doutores da economia. Quem acha que o hospital é a nova igreja não deve esquecer que a igreja velha começou por ser hospital. No tempo em que uma simples infecção era uma horrível causa de morte, e nascer para morrer era um absurdo aterrador, o Deus fabricado pela religião e comercializado pela igreja era o produto ideal para alimentar a esperança dos doentes e para iludir quem necessitava da vida eterna. É fácil perceber que os sacerdotes andavam loucos de prazer com o poder que tinham sobre os fracos e doentes que manobravam à vontade, e loucos de raiva porque não dominavam completamente os poderosos e sadios. Pecados e salvação das almas foram invenções de padres que não se contentavam com o poder que tinham e queriam dominar tudo e todos, e para tanto começaram por criar as Leis de Deus. O pecado foi instituído, mas como o castigo devia ser cumprido no outro mundo os pecadores só ““quiseram””salvar a alma quando lhes deram tratos ao corpo cá na terra. Transformar pessoas em abelhas é fácil porque na colmeia já nós estamos, mas salvar almas foi tarefa difícil porque além das Leis de Deus foi preciso fazer o Céu e o Inferno. Levar abelhas para a direita ou para a esquerda é fácil, mas para dar aos pecadores o que merecem a conversa tem de ser outra.
Perigosamente não é pecaminosamente. Mas pode ser. Ou não. Eis a questão.
 
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david77 (seguir utilizador), 1 ponto , 10:23 | Terça feira, 5 de maio de 2009
    Re: O Novo Terrorista    Ver comentário
taralhouco (seguir utilizador), 1 ponto , 13:45 | Terça feira, 5 de maio de 2009
    Re: O Novo Terrorista    Ver comentário
amboiva (seguir utilizador), 1 ponto , 17:17 | Terça feira, 5 de maio de 2009
    Re: O Novo Terrorista    Ver comentário
david77 (seguir utilizador), 1 ponto , 19:51 | Terça feira, 5 de maio de 2009
    Re: O Novo Terrorista    Ver comentário
amboiva (seguir utilizador), 1 ponto , 23:23 | Terça feira, 5 de maio de 2009
    Re: O Novo Terrorista    Ver comentário
david77 (seguir utilizador), 1 ponto , 12:04 | Quarta feira, 6 de maio de 2009
    Re: O Novo Terrorista    Ver comentário
amboiva (seguir utilizador), 1 ponto , 17:37 | Quarta feira, 6 de maio de 2009
    Re: O Novo Terrorista    Ver comentário
david77 (seguir utilizador), 1 ponto , 19:11 | Quarta feira, 6 de maio de 2009
    Re: O Novo Terrorista    Ver comentário
amboiva (seguir utilizador), 1 ponto , 23:50 | Quarta feira, 6 de maio de 2009
    Re: O Novo Terrorista    Ver comentário
taralhouco (seguir utilizador), 1 ponto , 14:21 | Quinta feira, 7 de maio de 2009
    Re: O Novo Terrorista    Ver comentário
amboiva (seguir utilizador), 1 ponto , 17:54 | Quinta feira, 7 de maio de 2009
    Re: O Novo Terrorista    Ver comentário
taralhouco (seguir utilizador), 1 ponto , 21:33 | Quinta feira, 7 de maio de 2009
Pertinente quanto baste
AntiFar (seguir utilizador), 1 ponto , 10:50 | Terça feira, 5 de maio de 2009
Artigo interessante, agradável, fluido, bem-humorado e pertinente quanto baste.

O livro (ah, essa “mania” de aconselhar livros!…): ainda não li e já discordo...
 
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A minha alma
cjours (seguir utilizador), 1 ponto , 15:19 | Quarta feira, 6 de maio de 2009
A minha alma está parva! Então não é que eu até achei piada ao texto? Jamais pensei dizer semelhante coisa de um texto aqui do nosso amigo, mas é verdade! Bem, eu sou ateu o que talvez explique a coisa...
Duas notas:
1. "O nosso quotidiano é controlado por um fascismo hipocondríaco. Não podemos fumar. Não podemos comer pão com sal. Temos de fazer desporto. Só podemos ter um parceiro sexual." - Não é verdade! Os verbos 'poder' e 'ter' não deviam ser aqui aplicados. A verdade é que 'podemos' fazer tudo, e não 'temos' que fazer nada. Arcamos é com as consequências das nossas decisões, ou não...mas é uma escolha!
2- Uma coisa sempre me fez confusão e achei piada o autor falar disso:
Nunca percebi porque é que as pessoas dizem, por exemplo, "fiquei curada, graças a Deus" ao sairem de um hospital. Não teria mais lógica, quando estão doentes, irem para uma Igreja rezar e ficar à espera que Deus as tratasse? Aí fazia sentido dizer que Deus as tinha curado!!
É que assim poupava-se algum no SNS...
Fica a ideia para a senhora Ministra da Saúde. Articular com as Igrejas um Serviço Nacional de Cura a funcionar nas Igrejas!!! Pode ser que se arranjem mais santos portugueses e tudo...
 
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    LOL hehehehehehe    Ver comentário
Paulo Pedroso (seguir utilizador), 2 pontos , 15:59 | Quarta feira, 6 de maio de 2009
    Re: LOL hehehehehehe    Ver comentário
THUNDERSSTORM (seguir utilizador), 1 ponto , 20:34 | Quarta feira, 6 de maio de 2009
    Re: LOL hehehehehehe    Ver comentário
Paulo Pedroso (seguir utilizador), 2 pontos , 1:22 | Quinta feira, 7 de maio de 2009
    Re: LOL hehehehehehe    Ver comentário
THUNDERSSTORM (seguir utilizador), 1 ponto , 10:55 | Quinta feira, 7 de maio de 2009
    Fascismo Hipocondríaco versus Comunismo Saudável..    Ver comentário
kcorreia (seguir utilizador), 1 ponto , 16:26 | Quarta feira, 6 de maio de 2009
    Re: Fascismo Hipocondríaco versus Comunismo Saudáv    Ver comentário
cjours (seguir utilizador), 1 ponto , 17:40 | Quarta feira, 6 de maio de 2009
    este anda ao engate no expresso AH AH AH AH AH AH    Ver comentário
THUNDERSSTORM (seguir utilizador), 1 ponto , 20:26 | Quarta feira, 6 de maio de 2009
    Re: este anda ao engate no expresso AH AH AH AH A    Ver comentário
cjours (seguir utilizador), 1 ponto , 18:17 | Quinta feira, 7 de maio de 2009
    CORTA!    Ver comentário
kcorreia (seguir utilizador), 1 ponto , 12:26 | Quinta feira, 7 de maio de 2009
    Re: CORTA!    Ver comentário
THUNDERSSTORM (seguir utilizador), 1 ponto , 15:06 | Quinta feira, 7 de maio de 2009
    Re: CORTA!    Ver comentário
cjours (seguir utilizador), 1 ponto , 13:39 | Sexta feira, 8 de maio de 2009
    Re: CORTA!    Ver comentário
kcorreia (seguir utilizador), 1 ponto , 16:57 | Sexta feira, 8 de maio de 2009
    Tacanhez    Ver comentário
cjours (seguir utilizador), 1 ponto , 18:25 | Sexta feira, 8 de maio de 2009
Um bocadito a sério
SirArthur (seguir utilizador), 1 ponto , 14:37 | Quinta feira, 7 de maio de 2009
Embora não seja bem o contexto deste artigo, creio que se deveria mesmo pensar numa base de dados de hipocondríacos... com umas receitas de «Óxido de Hidrogénio» ou qualquer outra «banha da cobra», nem que fosse um garrafinha cheia de azoto com oxigénio a cerca de 8% para inalar ou um comprimido de farinha sem fermento comprimida, prontinhas a sair e com comparticipação a 100%.
Sempre se poupavam uns milhões, seja em medicamentos de marca, seja em genéricos, que saem das prateleiras para curar doenças imaginárias e deixar os recursos a quem deles necessita mesmo...
 
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