O antigo ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho, quebrou o silêncio de quase uma década sobre a área que tutelou entre 1995 e 2000 e tece duras críticas à política cultural do actual Executivo.
Num documento enviado a António Vitorino, que preside à Fundação Res Publica, a que o Expresso teve acesso, o actual embaixador português na UNESCO lamenta que a política cultural se tenha tornado "cada vez mais invisível, ilegível e incompreensível, ameaçando fazer dos anos 2005/2009 uma legislatura perdida para a cultura" e sugere que "a Fundação Res Publica (ou o fórum Novas Fronteiras), retomando o espírito dos Estados Gerais - isto é, um espírito de real abertura e de efectivo debate -, abra uma ampla discussão sobre a situação e o futuro das políticas culturais em Portugal, com a intenção de as refundar".
"A cultura pode dar uma importante contribuiçãona resposta à crise que o país atravessa", sustenta Manuel Maria Carrilho, sublinhando que a cultura é "parte do património do PS" que importa "manter, renovar, valorizar". A crise indesmentível que atravessamos "de modo algum justifica" - no seu diagnóstico sem paliativos - "seja o estado de abandono a que a cultura tem sido votada, seja o desinvestimento de que tem sido objecto e que pode provocar - e enfatizo este ponto, uma vez que se trata de uma ameaça real - danos irreversíveis".
Citando o antigo ministro das Finanças de Sócrates, Luís Campos e Cunha, e vários estudos da União Europeia, Carrilho defende a valorização do contributo da cultura e da criação "no PIB, no emprego, na coesão, na competitividade. Não reconhecer isto é, hoje, de uma cegueira tragicamente irresponsável". E propõe: que o PS garanta a efectiva progressão do orçamento para a Cultura até ao 1% do Orçamento do Estado que já prometia António Guterres em 1995; e que "reformule a administração dos sectores fundamentais". "É urgente mudar", conclui, aconselhando o PS a "assumir com verdade o balanço do período que agora termina e prometer mais e melhor" para o futuro.
Agentes culturais aplaudem
O regresso de Carrilho à cultura, ainda que apenas através de um texto para discussão interna no PS, foi saudado por vários protagonistas culturais contactados pelo Expresso.
"Recolocar a cultura no mapa político é romper o silêncio. E vozes rebeldes são muito bem-vindas", diz Pedro Abrunhosa, demolidor na qualificação do estado actual de coisas, não apenas na cultura mas na política nacional em geral: "Isto é um quarto vazio, sem portas, nem janelas, nem brechas", afirma o músico portuense. Comparável aos tempos de Cavaco? "Pior, porque nessa altura havia oposição. Agora não há".
Ricardo Pais, antigo director do Teatro Nacional S. João, aplaude o facto de alguém com o peso político de Carrilho "pôr o dedo na ferida, chamar a atenção para as responsabilidades tremendas deste Governo no estado da cultura". Que é, afirma, "lastimoso", de "um vazio absolutamente impensável". Recordando António Guterres como "um homem superiormente culto, ainda que pusilânime", vê em Sócrates "o negativo" de Guterres.
O cineasta João Mário Grilo é igualmente crítico da política cultural deste Governo: "O que tem acontecido é uma não-política - o que é um acto performativo politicamente, produz resultados. E os resultados têm sido dramáticos". Grilo fala de "marasmo absoluto, falta de dinamismo, só compreensível se se quiser liquidar a cultura". Neste contexto, acrescenta, a reflexão proposta por Carrilho é "absolutamente imprescindível".
Também a antiga directora-geral dos Museus Raquel Henriques da Silva saúda a iniciativa do ex-ministro. "Um dos maiores problemas da cultura é a falta de vozes políticas". O actual ministro, José António Pinto Ribeiro, merece-lhe todas as reservas: "Revelou-se fraquíssimo". A professora regista ainda a "desorçamentação brutal" da cultura para concluir que estamos a ir em sentido contrário ao do resto da Europa. "A cultura é geradora de dinâmicas sociais positivas", conclui, numa posição de resto comum a todos os agentes culturais ouvidos pelo Expresso.
Paulo Ribeiro, director artístico da companhia de bailado com o seu nome (que actua no Teatro Viriato, em Viseu), fala da cultura como forma de combate à crise de modo entusiástico: "A forma como a cultura pode dinamizar um país tem um retorno absoluto, por completo, nunca se perde dinheiro". E acrescenta: "O momento é perfeito para que isto seja pensado e debatido e sejam tomados compromissos".
António Vitorino garante que vai considerar todos os contributos
O presidente da fundação Res Publica, encarregada de dinamizar o debate sobre o programa com que o PS se vai apresentar a votos nas próximas legislativas, confirmou ao Expresso ter recebido o documento assinado por Manuel Maria Carrilho mas negou-se a comentá-lo. "há muitos contributos a chegar à fundação, todos os dias, mal seria se eu comentasse cada um deles", justificou António Vitorino, acrescentando, relativamente ao seu antigo companheiro de Governo: "Apesar da estima que me merece o autor". O dirigente socialista garantiu que todos os contributos que a Res Publica tem estado a recolher serão levadas em consideração na redação do programa.
Em directo e a direito
Manuel Maria Carrilho (embaixador da UNESCO): "A política cultural tornou-se cada vez mais invisível, ilegível e incompreensível."
Pedro Abrunhosa (músico): "Nem a cavaquização do país conseguiu ir tão longe como a socratização. Isto é um quarto vazio, sem portas nem janelas."
Raquel Henriques da Silva (ex-directora-geral dos Museus): "Ao longo destes quatro anos não houve um discurso do PM sobre cultura."
Ricardo Pais (ex-director do Teatro Nacional S.João): "Sócrates é o negativo de Guterres: um primeiro-ministro anticultura, antieducação."
Paulo Ribeiro (coreógrafo): "É absolutamente urgente retomar o que foi iniciado em 95 e se foi perdendo."
João Mário Grilo (cineasta): "O ministério da Cultura é, hoje, uma espécie de posto honorífico. È lamentável esta ausência de política."
Texto publicado na edição do Expresso de 21 de Março de 2009