É necessário voltar atrás, à "máquina de matar bandidos" de Rossellini
("La Macchina Ammazzacattivi", 1952) e repensar em tudo: na responsabilidade do cinema (que se perdeu), na ética dos seus princípios (que se perderam), na sua relação com a história (que anda de rastos). E na fé do seu poder, sobretudo.
Este texto vem 'a quente': quase acabámos de sair da sala onde passou "Inglourious Basterds." Assim mesmo, 'inglourious' com 'u' e 'basterds' com 'e', à americana, com erros gramaticais, para inglês ver. Trata-se do novo filme de Tarantino
. O pior que se poderia fazer era deixar comentário light. Seria injusto para o filme. Talvez ele nem seja o mais belo; não é, de todo, o mais siderante de Quentin; mas parece-nos, e a ideia começa a ganhar corpo, que é o filme mais importante deste festival
.
O registo é clássico e musculado, a saga também. Divide-se em capítulos, tem ambição literária. É falada em francês, inglês, alemão e mistura actores dessas nacionalidades. Não há aqui espaço para a experimentação de "À Prova de Morte", a coisa é diferente, é mais séria, sem histeria. Foi feita por um cineasta todo-o-terreno que não tem medo dos géneros: e embora sejam de "western-spaghetti" os ambientes iniciais, tudo se torna sóbrio a partir daí. Depois, abre-se as portas a um filme de vingança em que o cinema é uma arma de arremesso - e é com o cinema que Tarantino vai à guerra, ou seja, "Inglourious Bastards" - é isto que queremos sublinhar - é um filme sobre o cinema.
A inspiração veio de um série-B italiano dos anos 70, "Quel Maledetto Treno Blindato", de Enzo Castelari - mas "Inglourious Basterds" não é um remake. Tarantino inventou um grupo de mercenários, alguns deles judeus, que vêm dos EUA para a Europa com uma missão: chacinar nazis na França ocupada da II Guerra Mundial. O grupo é liderado pelo americano Aldo Raine (Brad Pitt
), um 'apache' já com uma série de escalpes nazis no currículo. Ou seja: Tarantino não vinga só os judeus, consegue também arranjar maneira de vingar os índios. A Aldo Raine, juntam-se ingleses (Michael Fassbender), judeus austríacos e uma estrela do cinema alemão, Bridget von Hammersmark (Diane Kruger), que colabora com a Resistência.
Ainda não falámos daquela que nos parece a personagem central, Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent
). Judia francesa, sobrevive por um triz aos nazis que matam a sua família, em 1941. Esta é a primeira sequência do filme. Três anos depois, vêmo-la a dirigir uma sala de cinema em Paris, sob um nome falso. Acontece que essa sala, fruto de um acaso, receberá a estreia de um famoso filme de propaganda alemã. A fina flor nazi vai lá estar, Führer incluído. Shosanna pensa num plano. Um plano cinematográfico que horrorizaria qualquer presidente de Cinemateca. Ela tem em seu poder as bobines de 350 cópias de filme em nitrato. E o nitrato, como às tantas se ouve, "arde três vezes mais depressa que o papel."
Voltamos a Rossellini e à sua máquina, para sublinhar outra coisa. O que se passa em "Inglourious Basterds" é tão simples como isto: é que o cinema, aqui, não é uma arma metafórica, é uma arma literal. Arde como um Marlboro. Afinal, estamos a falar de um filme que, pela fé de Tarantino, pode admitir uma versão alternativa da história do século XX. Uma versão para salvar o mundo. A ideia é romântica e é também uma velha utopia: eis o filme que a materializa. Afinal, trata-se tudo de uma questão de justiça. De um salut! a Fritz Lang
.
"Inglourious Basterds"
de Quentin Tarantino,
com Brad Pitt, Mélanie Laurent, Christoph Waltz, Michael Fassbender
(Selecção Oficial - Competição)