Londres, 01 Jul (Lusa) - Vhils, pseudónimo adoptado pelo artista plástico português Alexandre Farto, inaugura na quinta-feira a primeira exposição individual em Londres, numa das principais galerias de arte de rua britânicas.
A exposição junta obras anteriores com outras originais, como é o caso de um molde em fibra de vidro de uma carruagem do metro londrino, o qual depois derreteu parcialmente e pintou com sprays.
O objectivo, explicou à agência Lusa, é "criar uma fricção em relação àquilo que se passou em Londres no último ano e meio, dois anos, em que tudo parecia intocável [...] e de repente tudo se tornou mais frágil com a recessão".
Vhils vê o metropolitano como "motor desta cidade gigantesca" e usa a imagem para ilustrar a vida moderna, o consumismo e as consequências da crise financeira.
Nas outras salas, acrescentou, é feita uma "reflexão sobre os indivíduos que vivem nessa cidade e a influência da publicidade, que faz andar este circuito em que se ganham 10 euros por dia mas que, com a publicidade, já se sabe onde se vão gastar vinte [euros]".
Várias obras são feitas sobre cartazes de espectáculos sobrepostos, que arrancou das paredes de Lisboa e pintou de branco, "escavando" de seguida rostos de pessoas nas várias camadas de papel.
Outros rostos, que diz serem de pessoas anónimas que conheceu na rua, são esculpidos directamente nas paredes da galeria com a ajuda de um martelo pneumático, deixando os restos de tijolo e cimento no chão.
Em 2008, esculpiu uma cara idêntica numa parede pintada de branco no Cans Festival, numa exposição colectiva organizada pelo artista britânico Banksy.
O trabalho mereceu uma fotografia de primeira página no diário "The Times" e um convite para um projecto de teatro produzido pelo actor Kevin Spacey e a companhia Punchdrunk este ano.
Foi ainda elogiado pelo crítico de arte do "Daily Telegraph", que considerou o trabalho de Vhils superior ao dos outros 29 artistas internacionais.
"Ao contrário de Banksy, o que criou um impacto visual poderoso não foi a imagem mas a violência do método de trabalho do artista", escreveu Richard Dorment.
Vhils, que reclama como inspiração os murais revolucionários de Lisboa, mantém uma ideia comum no seu trabalho, que é "escavar para criar, destruir para criar".
O artista de 22 anos descreve o seu trabalho como uma "dissecação da camada de maquilhagem que a cidade tem" e uma tentativa de "escavar para tentar encontrar a essência".
Por isso chamou à exposição, que inaugura na quinta-feira e se prolonga até 01 de Agosto, "Scratching the Surface" [Arranhar a superfície].
Vhils cresceu na margem sul do Tejo e começou a pintar comboios e muros na região de Lisboa quando tinha 13 anos, como forma de "fugir a coisas piores".
Com o tempo melhorou técnicas e conheceu o trabalho de outros artistas de rua, como Banksy, com quem agora partilha a mesma galeria, a Lazarides.
Em 2007 instalou-se na capital britânica para frequentar um curso na universidade Central Saint Martin's College of Arts and Design, que completou este ano.
Em consequência das solicitações, nos últimos meses dedicou-se menos aos estudos. A dimensão do mercado britânico proporciona-lhe mais êxito do que em Portugal.
Vhils não arrisca a dar à arte de rua um estatuto equivalente a outras correntes artísticas, como a Pop Art.
"Só quando o tempo passar é que se vê o que fica e o que vai. Mas acho que é a estética com que esta geração se identifica", afirmou.
BM
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