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Anna Wintour, a senhora toda-poderosa da moda

Glacial, disciplinada e ciosa da sua vida privada, pouco se sabe sobre a mulher que comanda os destinos da bíblia da moda, a Vogue americana. Anna Wintour vê-se agora retratada num documentário, "The September Issue"

Rui Henriques Coimbra, Correspondente em Los Angeles
12:35 Quarta feira, 30 de setembro de 2009
Anna Wintour, a senhora toda-poderosa da moda

Podia ter sido retratada apenas como mais uma mulher disciplinada que se levanta diariamente da cama às cinco da manhã, joga ténis e só depois se senta para que a estilista lhe trate do cabelo. Mas se há nos cinemas um novo documentário sobre esta mulher, Anna Wintour, a directora da revista Vogue americana, é porque a vida dela dava um filme. Como se encontra aos comandos da publicação de moda mais relevante naquele que, por força do consumismo e poder de compra, é o maior mercado mundial da moda, imagina-se o dramatismo vivido todos os dias pela mulher mais poderosa dos Estados Unidos.


O documentário chama-se The September Issue porque observa a vida de Anna Wintour durante o planeamento e execução da edição de Setembro de 2007. Ia ser a edição mais bíblica de sempre, um número histórico. Não se admirem se Anna, o oráculo em forma de triângulo das Bermudas, aparecer no ecrã como uma fera que anda de um lado para o outro enquanto devora Gallianos e Gaultiers ao pequeno almoço.

Quem é esta mulher?


O documentário é uma novidade benvinda. Wintour, mais do que esconder-se atrás de uns óculos enormes, prefere a privacidade total quando não está a trabalhar, o que tem resultado na curiosidade geral: quem é esta mulher? Tratar-se-á de um ser humano com emoções ou alien superior sem pinga de sangue? Para quem tenta classificar fenómenos e resumir pessoas a um par de frases, Anna Wintour é um problema sério. Sabe-se que nasceu em 1949, em Londres, e que já foi mãe duas vezes apesar de ter usado mini saias da Chanel durante a gravidez. Imagina-se que tenha divorciado o marido psiquiatra de origem sul-africana, dado que aparece agora ao lado de um namorado vindo lá das bandas de Wall Street. E, como é do conhecimento geral, a personalidade dela é agreste e totalmente merecedora da alcunha Nuclear Wintour.

Os observadores gostam igualmente de auscultar a relevância de uma infância almofadada pela riqueza, do pai espartano que foi para a guerra e voltou ainda mais estóico, ou o facto de Anna ter abandonado muito cedo o colégio privado em favor da energia que se vivia na rua. Beatles, Rolling Stones, Mary Quant. O documentário também fala disso, e de como ela sempre soube o que iria fazer da vida. Com raízes criativas bem postas nos anos 60 vividos a 100 à hora, quando a moda foi reimaginada sobretudo porque a mulher exigia um maior poder nas decisões de todos os dias, Anna Wintour avança pelo documentário adentro como uma visionária que não tem de dar cavaco aos subalternos. "As pessoas dão-se bem com quem tem uma visão clara daquilo que é preciso ser feito", disse ela há tempos.

Anna Wintour, a senhora toda-poderosa da moda

Mesmo quando tentamos conjugar os detalhes da vida real, a mulher mantem-se distante. Magra. Calada. Inquieta como um pássaro. Pois, isto tudo. Mas como a indústria americana da moda movimenta 3 mil milhões de dólares e Anna Wintour se mantem ao leme do veículo mais influente, fica vontade de saber mais. O September Issue revela os segredos aos poucos mas, nas imagens, a urgência é absoluta e a concentração não esmorece, faça noite ou dia. Tudo é decidido com exactidão: o fotógrafo ideal para a produção de moda sobre os anos 20, a quantidade perfeita de casacos de pele de acordo com a quantidade de imagens e texturas, o tom das palavras reprováveis quando fica claro que a colecção Yves Saint-Laurent tem falta de cor e de opções para a noite; ou, mais difícil ainda, a ideia de fundo capaz de ancorar a edição - casacos!

"Alien" Wintour


Se o filme inclui mandíbulas e golpadas de misericórdia geralmente associadas aos tubarões fêmea obcecadas com a propagação da espécie, é porque as guerras maiores são travadas entre Anna Wintour e Grace Coddington, uma modelo londrina que já paassou 20 anos na Vogue UK, outros 20 na Vogue US e que, hoje, musa fiel apesar das patadas diárias que lhe atira a directora, organiza as produções de moda sonhadoras que são imagem de marca. Claro que as imagens contêm faces conhecidas, sejam elas da actriz Sienna Miller ou do costureiro Oscar de la Renta, mas a verdadeira aventura desenrola-se no escritório da deusa e nos desfiles que testemunha com pose de esfígie, um pouco como se ela precisasse de silêncio e concentração para enfrentar um mundo colossal cada vez mais cheio de imitações vulgares, velocidades tecnológicas e outras coisas incompatíveis com os pormenores de um bustier Lagerfeld. Recentemente, Tina Brown, uma outra diva da imprensa envernizada, escreveu isto no seu blogue: "O filme é um êxito. A Anna é maior que nunca. Com tanta televisão mostrando cenas da vida real e entrevistas a vedetas em todo o lado, o público cansou-se de estrelas acessiveis. De facto, quem é que precisa que as estrelas sejam vistas como pessoas normais iguais a nós? Tal ideia acaba por dar origem a produtos parecidos com a nossa própria vida, aborrecidos. O que o público quer é um elemento místico. Como é que ela é mesmo por trás dos óculos escuros? O grande atractivo da Anna é não sentir qualquer interesse em fingir que é humana".

Não são conhecidos pormenores da sua vida doméstica, embora se possam confirmar dois factos: quando vai a Paris ver os desfiles exige ficar na suite Coco Chanel do Hotel Ritz e, seja em Nova Iorque ou no estrangeiro, o carro que a transporta deve ser um Mercedes S-Class. Ganha 2 milhões de dólares por ano e há por aí boatos de que o império editorial Condé Nast está quase a substituí-la pela editora da vogue Francesa ou russa. O filme não revela segredos indelicados. Mostra apenas a entrada dela no carro conduzido por motorista. Isso e uma, ou outra, conversa com a filha Bee Shaffer, uma licenciada de 20 anos que tem tido muita dificuldade em encontrar emprego mas que, este verão, ao menos encontrou trabalho num festival de teatro cuja noite de estreia a mãe compareceu, ficando provado de uma vez por todas que Anna Wintour é uma senhora cheia de carinho e não apenas um diabo que veste Prada. O namorado é de alta patente, filho milionário do senhor que fundou a capital do Texas. É 3 anos mais velho que ela. O dinheiro vem-lhe das telecomunicações, embora já deva ter umas quantas fortunas feitas á custa do gado e do petróleo. Não há notícias do que esta gente come ao pequeno-almoço mas os colegas dela garantem que, alem da cafeína, Anna Wintour só mete na boca coisas doentiamente saudáveis. Diz-se que prefere dieta proteica tipo salmão e ovos mexidos. Não se sabe nada do filho, Charles, mas especula-se que vá um dia dirigir a Vogue Men. Formou-se em Oxford mas consegue levar uma vida ainda mais anónima que a da mãe.

Anna Wintour, a senhora toda-poderosa da moda

Esteja ela na casa de Nova Iorque, na outra que tem em Long Island ou num hotel de Paris, Wintour vai onde está a energia. Por exemplo: insira aqui uma semana do calendário. Uma qualquer. Verá que o resultado é praticamente o mesmo. Ok, para facilitar as coisas, falemos das semanas mais recentes. Alem de ser a editora-mor geneticamente cruzada com imperatriz glacial que, todos os meses sem falha, coloca à venda a bíblia da moda, mantem-se ocupada com muitas outras prioridades. Há dias Anna Wintour foi vista em dois circuitos importantes na vida do mundo poderoso. Alem de ter inaugurado a época dos desfiles de moda em Nova Iorque ainda arranjou energia para eclipsar o estrelato dos tenistas que, no corte central, decidiam quem iria ficar com a taça maior do Open americano. A senhora tem acesso ao palanque privado que acolhe a família e os amigos mais chegados do suiço Roger Federer.

Mas se pensam que a vida dela é uma delícia diária e nunca menos que um tapete vermelho em direcção ao Olimpo, bom, calma: nada é assim tão fácil. Desde logo, Roger Federer, o ídolo elegante e exacto que tem atingido novas alturas na arte de manipular a raquete, acabou por não ganhar o torneio e, por isso, foi vê-la a sair discretamente do estádio antes da derrota, assim como uma super-heroína especializada em movimentos resvés e capaz de se escapar antes que a sua imagem e reputação fiquem associadas ao local do crime. Seja como for, não interessa quem ganhou o Open. O que interessa é que Wintour estava no lugar certo, tomou a decisão certa e, naturalmente, provou que, sem o amuleto da sorte que é a sua presença magnífica, qualquer campião perde a magia.

Este ano os quiosques puseram à venda o september issue de 2009, grosso como uma lista telefónica. Roger Federer aparece, por acaso, na página paga pela Rolex, e outra vez mais adiante, num perfil glorioso. Como vem sendo hábito desde que Wintour subiu aos comandos da revista, a capa não foi entregue a uma modelo maquinal. É Charlize Theron a promovida, em tons de Georgia O'Keefe e fotografada no Novo México por Mario Testino, como Sienna Miller em Roma, anos antes. Na Vogue o mês de Setembro parece que foi talhado para loiras que gostam do sol. Nisto Wintour mantem-se intransigente. se mudou para este lado do Atlântico e pegou na revista, a mudança foi imediata. Em vez de top models pagas a peso de ouro, Wintour preferiu actrizes, vedetas, desportistas e, até, uma ou outra primeira dama. Na sua primeira capa, em 1988, Wintour ainda colocou uma modelo - Michaela Bercu, uma israelita fotografada por Peter Lindbergh que apareceu mais tarde num filme do Coppola - mas, embora a beldade adolescente trouxesse no corpo uma t-shirt Christian Lacroix pejada de jóias e com preço de 10 mil dólares, os jeans escolhidos pela editora eram vendidos a 50 dólares na loja da esquina. Vinte anos mais tarde, olhem para o estatuto dos jeans. Alguns deles custam os olhos da cara.

Bruxinha magnética


Caro. Barato. Exclusivo. Visons quando não é politicamente correcto. Democrático. Sério. Risonho. Ou, como ela gosta de dizer, vale tudo desde que a escolha tenha sido feita com estilo. "Um par de jeans e uma t-shirt podem ser vistos como uma declaração de moda tão vibrante como um vestido de noite Oscar de la Renta". Numa mesma revista vários encontros. Este ano a filosofia mantem-se. O editorial do September issue 2009 ainda tem por título um ideal panfletário, desta vez com título "Purpose-Driven", mas isso é só porque Anna Wintour nunca foi editora para gostar de mulheres acomodadas. Desde que pegou no ceptro que dá toda a sua atenção à guerreira urbana que quer saber o que há de melhor, onde, como obter, sempre mais depressa que a vida é demasiado boa e excitante para poses fúteis. Esposas com tempo de sobra para devaneios é fauna que não lhe interessa. Nas páginas interiores dentro, as mais irresistíveis, Grace Coddington juntou-se a uma dupla de fotógrafos holandeses para que divagassem juntos sobre o capuchinho vermelho. Não foi Wintour quem fotografou. Mas foi ela quem decidiu. Desfolhada, a revista diz apenas o essencial - vá, sonhem outra vez que a moda serve para nos levar em passeios cheios de imaginação e que não magoam.

Mas voltemos ao que se passou há dias, no início da semana da moda nova- iorquina. Anna Wintour, a bruxinha magnética que só pode ser parte alien e parte tesoura afiada, foi para um mall de subúrbio dar início às festividades estilosas, como é seu dever dado que chamou a si o papel de castelã que vela pelos costumes e traz à cintura o molhe das chaves. Mas fê-lo numa noite húmida longe do coração palpitante de Manhattan, em Queens e, mais tocante ainda, numa sucursal popularucha da Macy's. Podia ter passado o serão a beber champagne com a Donna ou com o Calvin, refastelada num canapé de anaconda. Mas, em tempo de crise económica avassaladora capaz de ferir mortalmente o comércio de luxo, Anna Wintour foi misturar-se com o povo. Há monarcas regentes que têm destas coisas. Contudo, apostaria que por trás dos vidros esfumados do carro luxuoso e por trás dos óculos escuros que ela usa como muralha intransponível, foi por ali acima a ver as montras que se alinhavam nas avenidas. Montras de roupa. Umas a seguir às outras como capelas iluminadas pela santa dos milagres.

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