O novo filme de Tim Burton, "Alice no País das Maravilhas", filmado a 3D para a casa onde o artista iniciou carreira há quase 30 anos (Disney), é uma adaptação muito livre e negra de "As Aventuras de Alice no País das Maravilhas" e de "Alice do Outro Lado do Espelho", dois contos imortais de Lewis Carroll.
O Expresso viu ontem o filme, numa projecção organizada pela Disney para a imprensa, em Londres, seguida de conferência de imprensa para cerca de 200 jornalistas de todo o mundo. A ante-estreia mundial foi também ontem à noite, na mítica sala do Odeon Leicester Square, na capital inglesa. Hoje, é dia de entrevistas.
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| A actriz Anne Hathaway e o realizador Tim Burton durante uma promoção de «Alice no País das Maravilhas» realizada recentemente em Los Angeles |
| Matt Sayles/AP |
Na conferência de imprensa estiveram Tim Burton, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway, Crispin Glover, Mia Wasikowska (a jovem actriz australiana interpreta a heroína do título), o produtor Richard D. Zanuck e o compositor Danny Elfman (esta é a sua 13ª colaboração com Tim Burton), entre outros membros da equipa.
O filme chega a Portugal no dia 4 de Março.
Uma Alice teenager
O primeiro plano de "Alice no País das Maravilhas" é de Carroll. Vemos uma miúda assombrada por sonhos, "sonhos que são só meus e que podem acabar quando eu quiser", tal como ela repetirá ao longo do filme. Mas não é bem assim. A partir dessa sequência inicial, passamos para o outro lado do espelho e este lado é cem por cento "burtoniano".
O filme começa 13 anos depois da acção do livro. Ou seja, Alice já perdeu a infância. É uma adolescente de 19 anos, no corpo de Mia Wasikowska (lê-se 'va-she-kov-ska'). Está prestes a dar o nó com um homem que não ama. Na cerimónia, surge o Coelho Branco, tal como acontecia no primeiro capítulo do livro. Um déjà vu para Alice? Sim, mas isso não a impede de ir atrás dele. O noivo fica especado. E Alice volta a cair no mesmo 'buraco negro' que a levará de novo ao seu mundo de maravilhas da infância.
Wonderland transforma-se em Underland: uma Alice 'debaixo da terra'?
O filme de Tim Burton parece querer atravessar todas as etapas da existência da Alice e prolongar a sua história num episódio nunca escrito. Um episódio que espreita o dark side da história. Quando Alice chega à terra encantada, não vai seguir os capítulos do livro tal como o conhecemos.
A sua aventura é completamente nova: em primeiro lugar, porque a Wonderland, no filme de Tim Burton, chama-se Underland (a terra subterrânea). Em seguida, porque a Alice adolescente vai ter de convencer os seus velhos amigos Coelho Branco, Gato de Cheshire ou Chapeleiro (papel de Johnny Depp) que é, de facto, a Alice que outrora foi criança.
O Chapeleiro ganha importância decisiva como personagem e deixa o espectador na expectativa de um romance impossível entre ele e Alice. Não podemos esquecer a terrível Rainha Vermelha, que domina a Underland com pulso de ferro. O extraordinário papel é de uma Helena Bonham Carter quase irreconhecível. Não esquecemos ainda a sua antagonista, a Rainha Branca (Anne Hathaway), a quem a Rainha Vermelha roubou o trono.
Johnny Depp fiel a Tim Burton
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| Johnny Depp à chegada esta noite à mítica sala londrina Odeon Leicester Square, para a ante-estreia mundial de «Alice no País das Maravilhas» |
| Joel Ryan/AP |
Johnny Depp destacou a "pronúncia escocesa" da sua personagem, um Chapeleiro complexo e perturbado como o 'seu' Eduardo, que tinha 'mãos de tesoura.' Depp recordou os tempos dessa obra-prima e confessou que, na sua relação de trabalho com Tim Burton, nada mudou: o grau de exigência continua a ser o mesmo.
E acrescentou a coisa mais inteligente que se ouviu na conferência de imprensa: "'As Aventuras de Alice no País das Maravilhas' é um livro abstracto, ou pelo menos foi esta a impressão que o tive quando o li em pequeno. Cada leitor imagina um 'país' à sua maneira. Mas as personagens ficam. Estão gravadas numa memória colectiva para sempre."
Tim Burton desenvolveu: " Não sinto que haja uma versão definitiva de 'As Aventuras de Alice no País das Maravilhas.' O livro pertence à cultura, não só literária mas também musical, teatral, etc. Há nomes de bandas rock que vêm do livro. Vou pensar mais sobre isto: só acabei o filme na semana passada."
Isto talvez explique o êxito dos contos de Lewis Carroll, que há mais de cem anos passam de geração em geração. E talvez explique a liberdade de movimentos que permitiu agora a Tim Burton ousar transformar a matriz, embora o filme seja em tudo fiel ao seu espírito.
3D usada de forma suave e gradual
Tal como em "Avatar", mas não de modo tão sofisticado como no filme de James Cameron, a tecnologia 3D de "Alice no País das Maravilhas" é usada de forma suave e gradual. Jamais rouba o protagonismo do filme. E oferece-lhe momentos de puro deslumbramento.
"Nem todos os filmes a 3D serão êxitos", lembrou o produtor Richard D. Zanuck, "e nem todos os filmes do futuro terão de ser feitos a 3D. Por exemplo, olhe-se para a obra de Steven Spielberg: 'Tubarão' e 'Indiana Jones' são filmes que poderíamos imaginar a 3D se fossem feitos hoje, mas teria essa técnica alguma razão de ser numa obra como 'Munique'? O que se passa em 'Alice...' é que o próprio imaginário do livro adaptava-se como uma luva à nova técnica."