23/02/2012 atualizado às 3:54
Página Inicial » Atualidade » A nova maravilha de Tarantino

A nova maravilha de Tarantino

"Sacanas sem Lei", hoje em estreia em Portugal, é a nova maravilha de Quentin Tarantino. Filme de época e de guerra sem paralelo no género, é uma pura manifestação de fé no poder do cinema. (Veja o trailer no final do texto)

Francisco Ferreira
10:00 Quinta feira, 27 de agosto de 2009
O filme inverte o cliché do nazi enquanto pobre-diabo que mal abre a boca
O filme inverte o cliché do nazi enquanto pobre-diabo que mal abre a boca

O registo é clássico e musculado, a saga também. Divide-se em capítulos, tem ambição literária. Assim mesmo, "Inglourious" com "u" e "Basterds" com "e", à americana, com erros gramaticais no título original.

"Sacanas sem Lei" é falado em francês, inglês, alemão e, lá para o fim, em italiano. Mistura actores de várias nacionalidades. Não há aqui espaço para a experimentação de "À Prova de Morte", penúltimo filme de Tarantino - o tom agora é diferente, mais sério, foi-se a histeria do génio.

"Sacanas sem Lei" foi feito por um cineasta todo-o-terreno que não tem medo dos géneros: e, embora sejam de western-spaghetti os ambientes iniciais, tudo se torna sóbrio a partir daí. Depois, abre-se as portas a um filme de vingança em que o cinema é uma arma de arremesso, e é com o cinema que Quentin Tarantino vai à guerra, ou seja: "Sacanas sem Lei" - é isto que queremos sublinhar - é um filme sobre o cinema.

Talvez nem seja o mais belo de Quentin; não é, de todo, o mais siderante que realizou; mas parece-nos, desde a estreia de Cannes, que é o seu filme mais importante.

A inspiração veio de um série B italiano dos anos 70, "Quel Maledetto Treno Blindato", de Enzo Castelari - mas "Sacanas sem Lei" não é um remake.

Se Tarantino é um grande cineasta ainda é melhor argumentista. E desta vez transbordou de talento
Se Tarantino é um grande cineasta ainda é melhor argumentista. E desta vez transbordou de talento
Kamil Krzaczynski
Tarantino inventou um grupo de mercenários judeus. Durante a II Guerra Mundial, eles vêm dos EUA para a Europa com uma missão: chacinar nazis na França ocupada. O grupo é liderado pelo americano Aldo Raine (Brad Pitt), um 'apache' já com uma série de escalpes nazis no currículo. Ou seja: Quentin Tarantino não vinga só os judeus, consegue também arranjar maneira de vingar os índios.

A Aldo Raine junta-se uma banda de poliglotas e até uma estrela do cinema alemão, Bridget von Hammersmark (Diane Kruger), que passou para o outro campo e colabora agora com a Resistência. Há ainda Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent), uma judia francesa que sobreviveu por um triz aos nazis e, três anos depois, dirige uma sala de cinema em Paris sob nome falso.

Acontece que essa sala, fruto de um acaso, receberá a estreia de um famoso filme de propaganda alemã. A fina-flor nazi vai lá estar, Führer incluído. Shosanna pensa num plano. Um plano cinematográfico que horrorizaria qualquer presidente de Cinemateca. Ela tem em seu poder as bobinas de 350 cópias de filmes em nitrato. E o nitrato, como às tantas se ouve, "arde três vezes mais depressa que o papel".

Mas é mais produtivo ficar num plano teórico do que falar do filme em si, da sua história e da ousadia da sua revelação. De resto, deixamos num outro texto (Os sacanas da Tarantino) uma descrição das personagens e, por elas, a sinopse está feita.

Digamos para já que "Sacanas sem Lei" é um filme que, pela fé de Tarantino no poder do cinema, admite uma versão alternativa da história do século XX. Uma versão para salvar o mundo. Mas há muito de inesperado, sobretudo para quem associa Quentin Tarantino às cenas de acção de "Kill Bill" e "À Prova da Morte", ou seja, a uma assinatura inspirada em violência.

É que se Tarantino é um grande cineasta ainda é melhor argumentista, e desta vez transbordou de talento. E é com palavras - mais uma vez - que a guerra de Quentin é feita, não com rajadas de metralhadora, que, eventualmente, fecham longas sequências de diálogos de 20 minutos.

Em "Sacanas sem Lei", de Quentin Tarantino, o cinema está em todo o lado
Em "Sacanas sem Lei", de Quentin Tarantino, o cinema está em todo o lado

E eles falam, falam, falam... Pelas palavras se salvam, pelas palavras se traem. O prazer da melodia, os sotaques das diferentes línguas, o modo de ser em simultâneo tão inteligente e tão simples e voltar a acreditar na força de um argumento de cinema abençoado: "Sacanas sem Lei", no limite, só fala disto. De uma missão linguística.

Se nos seus filmes anteriores o jogo de Quentin Tarantino era a passagem do verbo à acção, "Sacanas sem Lei" rompe com este jogo dialéctico. Porque já não há passagem, precisamente. O verbo é a acção, tout court. E o essencial está nas diferenças entre uma língua e outra, no prazer das entoações, na proposta, neste sentido, musical que "Sacanas sem Lei" também nos oferece.

Pensamos na história do cinema americano, em todos os filmes de época e de guerra que foram feitos e num cliché que a América se encarregou de construir para o mundo desde que o genial Charlie Chaplin parodiou Hitler em "O Grande Ditador": a figura do nazi.

É uma figura de escárnio. Grosso modo, o nazi é um pobre-diabo que mal abre a boca, interpretado por actores de segunda mais pobres ainda. E se "Sacanas sem Lei" viesse inverter este cliché, este heroísmo made in USA, criando um coronel nazi, Hans Landa (Christoph Waltz), que, por ser poliglota, se torna o pivô de quase todas as sequências? A criação desta personagem sem igual em mais de cem anos de cinema é um gesto de invenção extraordinário.

Mas há mais além do 'tratado linguístico' - há também o cinema. Em "Sacanas sem Lei", ele está em todo o lado: no jogo de cartas que recorda King Kong ou Pola Negri, na personagem de Michael Fassbender, ex-crítico de cinema, na sala de cinema de Shosanna e até no filme de propaganda ("O Orgulho da Nação") que há dentro do filme e nos revela o heroísmo hitleriano da personagem de Daniel Brühl.

Estamos perante uma máquina de matar bandidos, inspirada pela musicalidade infinita do verbo e a variedade dos seus idiomas. Um grande jogo de prazer e de vingança, inflamável como o nitrato, que se arrisca a demonstrar isto - o cinema não é uma arma metafórica, é uma arma literal. E arde como um Marlboro!



Actualização de texto publicado na edição do Expresso de 22 de Agosto de 2009

Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
Vamos lá, então
Miranda07 (seguir utilizador), 2 pontos , 10:19 | Quinta feira, 27 de agosto de 2009
Eu espero mesmo não me arrepender, mas depois de ler esta crítica ao filme de Tarantino que acaba de ser estreado em Portugal, eu, que não faço a menor ideia de que outros filmes Tarantino fez (sei, porém, que fez), vou já, logo que possa, na primeira pausa possível, ver este filme. Se o filme for tão certeiro como, pelo menos assim se me dá a entender, a crítica parece ser, eu gostarei muito de fazer aquilo que há bastante tempo, em Portugal, não faço: ir ao Cinema! Pois digo: irei, espero, o mais depressa possível, pelo menos antes de que qualquer "sacana" (sem ofensa, caros amigos do cinema) retire o filme aqui das poucas salas que tenho à volta. É que esta coisa de agora para ir ao cinema ser preciso mesmo ter carro, pois quase não há cinemas nos centros mais centrais das cidades de agora, me dá muito incómodo. Mas penso que vou adorar ver em acção aquilo que aqui se me apresenta como a melhor das sacanices cinematográficas dos últimos tempos. E só mais uma pergunta: Os Sacanas são ditos sem lei; mas nada se diz que os mesmos sejam estúpidos, pois não? Bom, é com isso que eu estou a contar: que os Sacanas deste filme se não têm lei é apenas, e só, porque a lei que não têm não é a Lei da Razão. Vamos lá, então, a ver.
 
 Regras da comunidade
    Re: Vamos lá, então    Ver comentário
kcorreia (seguir utilizador), 1 ponto , 13:03 | Quinta feira, 27 de agosto de 2009
    Re: Vamos lá, então    Ver comentário
luismendonça (seguir utilizador), 1 ponto , 20:53 | Quinta feira, 27 de agosto de 2009
    Re: Vamos lá, então    Ver comentário
Miranda07 (seguir utilizador), 2 pontos , 21:03 | Quinta feira, 27 de agosto de 2009
    Re: Vamos lá, então    Ver comentário
kcorreia (seguir utilizador), 1 ponto , 21:56 | Quinta feira, 27 de agosto de 2009
    Re: Vamos lá, então - Já fui: R. 1    Ver comentário
Miranda07 (seguir utilizador), 2 pontos , 1:06 | Sexta feira, 28 de agosto de 2009
    Re: Vamos lá, então - Já fui: R. 2    Ver comentário
Miranda07 (seguir utilizador), 2 pontos , 1:08 | Sexta feira, 28 de agosto de 2009
    Re: Vamos lá, então - Já fui: R. 3    Ver comentário
Miranda07 (seguir utilizador), 2 pontos , 1:18 | Sexta feira, 28 de agosto de 2009
    Re: Vamos lá, então - Já fui: R. 3    Ver comentário
kcorreia (seguir utilizador), 1 ponto , 13:22 | Sexta feira, 28 de agosto de 2009
    Re: Vamos lá, então - Já fui: R. 3    Ver comentário
Miranda07 (seguir utilizador), 2 pontos , 14:38 | Sexta feira, 28 de agosto de 2009
    Re: Vamos lá, então - Já fui: R. 3    Ver comentário
kcorreia (seguir utilizador), 1 ponto , 16:28 | Sexta feira, 28 de agosto de 2009
A não perder!!! Pena a adulteração do título!
dedalo11 (seguir utilizador), 2 pontos , 11:16 | Quinta feira, 27 de agosto de 2009
Quentin Tarantino tem-nos mimado com excelentes filmes, dentro do género de cinema de que é praticante exímio. Deste novo filme espera-se muito. "Inglourious Basterds", é um título, cuja tradução para português, como de costume, deixa miuto a desejar, já que não tem nada a ver... a não ser provavelmente com alguém que viu o filme e resolveu que assim fosse re-baptizado, esquecendo-se das propositadas alterações ortográficas que são um dos ícones deste filme|||
 
 Regras da comunidade
    Re: A não perder!!! Pena a adulteração do título!    Ver comentário
kcorreia (seguir utilizador), 1 ponto , 12:53 | Quinta feira, 27 de agosto de 2009
    Re: A não perder!!! Pena a adulteração do título!    Ver comentário
dedalo11 (seguir utilizador), 2 pontos , 19:17 | Quinta feira, 27 de agosto de 2009
    Re: A não perder!!! Pena a adulteração do título!    Ver comentário
kcorreia (seguir utilizador), 1 ponto , 21:58 | Quinta feira, 27 de agosto de 2009
    Re: A não perder!!! Pena a adulteração do título!    Ver comentário
Manaia (seguir utilizador), 1 ponto , 17:07 | Quinta feira, 27 de agosto de 2009
    Re: A não perder!!! Pena a adulteração do título!    Ver comentário
Hanibal Barca (seguir utilizador), 1 ponto , 1:10 | Sexta feira, 28 de agosto de 2009
    Re: A não perder!!! Pena a adulteração do título!    Ver comentário
Hanibal Barca (seguir utilizador), 1 ponto , 1:08 | Sexta feira, 28 de agosto de 2009
Página 1 de 1   
PUB
 
Email
O Expresso no
PUB




UE admite perdão de dívida a países do Norte de África
23:58 Quarta feira, 22 de fevereiro de 2012,
Hugo Chávez vai ser operado novamente
23:17 Quarta feira, 22 de fevereiro de 2012, 1
Acidente de comboio na Argentina faz 49 mortos e 675 feridos
23:05 Quarta feira, 22 de fevereiro de 2012,
Explosão em Setúbal: moradores regressam a casa
22:48 Quarta feira, 22 de fevereiro de 2012,
Álcool, Valium e Xanax terão matado Whitney Houston
22:18 Quarta feira, 22 de fevereiro de 2012, 3
"Somos o povo, não o inimigo"
21:58 Quarta feira, 22 de fevereiro de 2012, 1
Moreno, o "inimigo" dos estudantes
21:44 Quarta feira, 22 de fevereiro de 2012, 6
Fundador do MegaUpload começou por roubar bancos
21:30 Quarta feira, 22 de fevereiro de 2012, 2
Absolvisão de Afonso Dias gera onda de indignação
20:13 Quarta feira, 22 de fevereiro de 2012, 16
Unidos da Tijuca campeã do Carnaval do Rio 2012
20:07 Quarta feira, 22 de fevereiro de 2012,
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
Grupo ImpresaACAP