Ao despertar para a dureza da realidade depois das eleições europeias, o primeiro-ministro lembrou-se de rezar à Nossa Senhora da Cultura, mãe dos políticos aflitos. A ideia não foi má, porque a cultura é como o vestido preto das mulheres: uma coisa que cai sempre bem. Nos funerais comove, nos banquetes é marca de distinção. Dá lustro à vaidade de quem a usa, e um je-ne-sais-quoi de densidade que verga, ainda que platonicamente, os mais brutos.
À dra. Manuela Ferreira Leite ninguém a vê de vestido preto: cinge-se ao bege betinho dos economistas, às pérolas clássicas de quem não gasta em modas nem vai em pensamentos originais. Nem sequer se dá ao trabalho de fazer de conta que viu todas as peças da senhora dona Eunice, ou que gosta do concerto para violinos que Chopin nunca compôs, ou que leu "A Sibila" - na cultura, para variar, pratica mesmo uma "política de verdade". Ora, a grande vantagem da crise é que fez cair dos altares os grandes deuses da economia. Tão espertos, tão brilhantes, tão hábeis no manejo dos números - e nenhum deles, no mundo inteiro, soube prever nem travar a epidemia de ganância e corrupção que nos fez dar a todos com os burrinhos na água.
O problema é que enquanto a cultura for apenas uma pregadeira de lapela, o país não muda. Li nos jornais que José Sócrates convidou no passado sábado uma trintena de criadores de várias áreas para os ouvir sobre os seus projectos. Espero que os tenha sabido ouvir a todos, dez minutos cada um, e que cada um deles tenha apresentado uma ideia mais vasta do que a sua quintinha. Que a coisa tenha ido além do discurso de efeito sobre a "transversalidade" das artes. Que tenha saído dali mais do que costuma sair: uns projectos para os mais bens falantes ganharem mais qualquer coisinha à conta do erário público, um acarinhamento especial com insinuação de medalha futura ao artista x ou y, a troco do seu voto.
Seria útil que, além das audições, Sócrates olhasse para o manifesto "Uma Cultura para o Século XXI", subscrito por mais de cem pessoas do sector cultural, entre as quais o Nobel José Saramago. Porque apresenta um retrato fiel do deserto que é a política cultural em Portugal - um retrato que encontramos, aliás, em todos os documentos europeus sobre as estratégias culturais no nosso país. Portugal produz inúmeras formas de arte, três delas consagradas internacionalmente (literatura, cinema, música) - mas isso acontece hoje apesar da acção política, e não com o apoio dela. A cultura só é deficitária quando é destratada com uns tostões de caridade. Se substituirmos a filosofia do bodo aos pobres por um plano de incentivo à actividade cultural e à criação de novos públicos, as coisas mudam.
Vejamos a área da literatura, por exemplo: no único período em que, no pós-25 de Abril, se definiu uma política cultural (por iniciativa de Manuel Maria Carrilho, como se sabe), lançou-se um plano de promoção da literatura portuguesa nos grandes eventos internacionais do Livro (no Brasil, em África, na Europa). Gastou-se dinheiro, conseguiu-se algum retorno em edições traduzidas e notoriedade nacional. Depois desistiu-se.
Onde estão os belíssimos pavilhões feitos para essas feiras? As exposições sobre Portugal e a Literatura Portuguesa que foram encomendadas e pagas? As novas traduções, e o eco delas? Tudo sumido. Construiu-se uma rede magnífica de bibliotecas públicas pelo país todo, com belos auditórios. Fazem-se leituras nessas bibliotecas? Teatralizações de textos? Comunidades de leitores? Debates? Colóquios? Cada vez menos.
Em tempos, quando Teresa Gil presidia ao então Instituto do Livro, houve umas bolsas de criação literária, pobrezinhas, mas que criaram uma polémica brava, porque se generalizou a ideia de que ser escritor não é trabalhar. Um dos presidentes seguintes, Rui Mateus Pereira, reestruturou o decreto de atribuição das bolsas, de modo a que apoiassem só quem já deu provas, o que me parece bem. Mas depois mudou-se o nome do Instituto e diminuiu-se-lhe drasticamente o orçamento, e nunca mais se ouviu falar de bolsas de criação literária.
O mesmo se passa em todos os outros sectores da cultura: começa-se e interrompe-se. Mudam as pessoas e os nomes das coisas, para que tudo se complique, o dinheiro se escoe não se sabe bem como e nada mude. Falta plano e gestão. Falta vontade. Falta percebermos que a cultura é uma forma de pensar e trabalhar sobre todas as coisas da vida, e não um berloque que se põe e tira de acordo com as circunstâncias.