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A cultura que nos acuda

Abriu a caça aos clubes de fãs dos artistas.

Inês Pedrosa
8:00 Quarta feira, 22 de julho de 2009

Ao despertar para a dureza da realidade depois das eleições europeias, o primeiro-ministro lembrou-se de rezar à Nossa Senhora da Cultura, mãe dos políticos aflitos. A ideia não foi má, porque a cultura é como o vestido preto das mulheres: uma coisa que cai sempre bem. Nos funerais comove, nos banquetes é marca de distinção. Dá lustro à vaidade de quem a usa, e um je-ne-sais-quoi de densidade que verga, ainda que platonicamente, os mais brutos.

À dra. Manuela Ferreira Leite ninguém a vê de vestido preto: cinge-se ao bege betinho dos economistas, às pérolas clássicas de quem não gasta em modas nem vai em pensamentos originais. Nem sequer se dá ao trabalho de fazer de conta que viu todas as peças da senhora dona Eunice, ou que gosta do concerto para violinos que Chopin nunca compôs, ou que leu "A Sibila" - na cultura, para variar, pratica mesmo uma "política de verdade". Ora, a grande vantagem da crise é que fez cair dos altares os grandes deuses da economia. Tão espertos, tão brilhantes, tão hábeis no manejo dos números - e nenhum deles, no mundo inteiro, soube prever nem travar a epidemia de ganância e corrupção que nos fez dar a todos com os burrinhos na água.

O problema é que enquanto a cultura for apenas uma pregadeira de lapela, o país não muda. Li nos jornais que José Sócrates convidou no passado sábado uma trintena de criadores de várias áreas para os ouvir sobre os seus projectos. Espero que os tenha sabido ouvir a todos, dez minutos cada um, e que cada um deles tenha apresentado uma ideia mais vasta do que a sua quintinha. Que a coisa tenha ido além do discurso de efeito sobre a "transversalidade" das artes. Que tenha saído dali mais do que costuma sair: uns projectos para os mais bens falantes ganharem mais qualquer coisinha à conta do erário público, um acarinhamento especial com insinuação de medalha futura ao artista x ou y, a troco do seu voto.

Seria útil que, além das audições, Sócrates olhasse para o manifesto "Uma Cultura para o Século XXI", subscrito por mais de cem pessoas do sector cultural, entre as quais o Nobel José Saramago. Porque apresenta um retrato fiel do deserto que é a política cultural em Portugal - um retrato que encontramos, aliás, em todos os documentos europeus sobre as estratégias culturais no nosso país. Portugal produz inúmeras formas de arte, três delas consagradas internacionalmente (literatura, cinema, música) - mas isso acontece hoje apesar da acção política, e não com o apoio dela. A cultura só é deficitária quando é destratada com uns tostões de caridade. Se substituirmos a filosofia do bodo aos pobres por um plano de incentivo à actividade cultural e à criação de novos públicos, as coisas mudam.

Vejamos a área da literatura, por exemplo: no único período em que, no pós-25 de Abril, se definiu uma política cultural (por iniciativa de Manuel Maria Carrilho, como se sabe), lançou-se um plano de promoção da literatura portuguesa nos grandes eventos internacionais do Livro (no Brasil, em África, na Europa). Gastou-se dinheiro, conseguiu-se algum retorno em edições traduzidas e notoriedade nacional. Depois desistiu-se.

Onde estão os belíssimos pavilhões feitos para essas feiras? As exposições sobre Portugal e a Literatura Portuguesa que foram encomendadas e pagas? As novas traduções, e o eco delas? Tudo sumido. Construiu-se uma rede magnífica de bibliotecas públicas pelo país todo, com belos auditórios. Fazem-se leituras nessas bibliotecas? Teatralizações de textos? Comunidades de leitores? Debates? Colóquios? Cada vez menos.

Em tempos, quando Teresa Gil presidia ao então Instituto do Livro, houve umas bolsas de criação literária, pobrezinhas, mas que criaram uma polémica brava, porque se generalizou a ideia de que ser escritor não é trabalhar. Um dos presidentes seguintes, Rui Mateus Pereira, reestruturou o decreto de atribuição das bolsas, de modo a que apoiassem só quem já deu provas, o que me parece bem. Mas depois mudou-se o nome do Instituto e diminuiu-se-lhe drasticamente o orçamento, e nunca mais se ouviu falar de bolsas de criação literária.

O mesmo se passa em todos os outros sectores da cultura: começa-se e interrompe-se. Mudam as pessoas e os nomes das coisas, para que tudo se complique, o dinheiro se escoe não se sabe bem como e nada mude. Falta plano e gestão. Falta vontade. Falta percebermos que a cultura é uma forma de pensar e trabalhar sobre todas as coisas da vida, e não um berloque que se põe e tira de acordo com as circunstâncias.

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A Cultura, essa Porca
NãoHáInocentes (seguir utilizador), 1 ponto , 11:32 | Quarta feira, 22 de julho de 2009
Útil não seria, mas talvez fosse honesto da parte da Drª Inês Pedrosa dizer-nos que ela também subscreveu o tal Manifesto. E, já agora, que, no desenvolvimento da "política cultural" do nosso país, é ela própria uma das beneficiárias dessa visão "sui generis" de mecenato estatal que impregna essa política, tendo sido nomeada Directora de uma Casa qualquer dedicada a produzir ou a ilustrar algo a esse propósito (o meu desconhecimento do assunto é proporcional à visibilidade da acção da aludida Casa e, por consequência, da própria cronista, investida nessa função de uma das "educadoras do Povo").
A Cultura, hoje em dia, por força das mentalidades de pessoas como a Drª Inês Pedrosa e outros iluminados da nossa praça - cuja arrogância intelectual está bem exemplificada na parte do texto em que se refere ao comportamento da Drª Manuela Leite e do Engº Sócrates - é, na prática, a Porca do Bordalo Pinheiro. Só que, engordada pelo erário público (já que o público, sensatamente, não aprecia a Arte dos patrocinados autores emproados e, por isso, nada paga), a Porca mudou o nome de Política para Cultura. E os bacorozinhos que, avidamente, chupam o que podem das suas tetas (subsídios, gratificações, subvenções vitalícias, casas pagas, prémios, tachos) não são os políticos. São os intelectuais, os cultos, os artistas. Pena que a afirmação de Woody Allen de que os intelectuais são como os "gangsters", matam-se uns aos outros, não se aplique, LITERALMENTE, a esses "nossos" intelectuais...
 
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CsdeCenouras (seguir utilizador), 1 ponto , 14:44 | Quarta feira, 22 de julho de 2009
Cultura ...pois!
lord byron (seguir utilizador), 1 ponto , 14:21 | Quarta feira, 22 de julho de 2009
Cada vez que escreves sobre algo que não cultura, escreves algo com interesse, com imparcialidade, enfim algo que vale a pena ler!
Quando o tema é cultura toda essa imparcialidade se vai e tudo fica demasiado perto de casa e a objectividade se vai!
Vamos então ao que quero dizer: A cultura tem de ser uma indústria e não uma carrada de subsídios onde existe sempre alguém que acha que não foram atribuídos imparcialmente!
A ópera como alguém disse há uns anos atrás é suposto dar prejuízo, o cinema é de autor e fez mais pelo cinema americano que as multinacionais de Hollywood todas juntas onde o nosso maior expoente é um chato com mais de cem anos e nunca conseguiu fazer um filme que não fosse subsidiado e nunca fez um que não desse prejuízo. Se realmente o lucro na cultura não pode ser objectivo único, uma Branca de Neve a preto como tivemos há uns anos atrás dum inútil que fez ao cinema o mesmo favor que o Carlos Paião fez há musica. Este é o problema daquilo que passa por cultura neste país é a mediocridade que passa por muito bom por a um qualquer grupo com influência nos media pertencer.
Por falar em Saramago sabes o que chateamos tudo e todos para ele ter o Nobel?
Pois eu sei!
Quanto a livros, lá porque existem pessoas que têm necessidade de os escrever, não quer dizer que existam pessoas que tenham necessidade de os ler! ...
 
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    Re: Cultura ...pois! parte dois    Ver comentário
lord byron (seguir utilizador), 1 ponto , 14:27 | Quarta feira, 22 de julho de 2009
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