Há uma condição para sermos livres: sentirmo-nos livres. Isto é verdade em qualquer regime ou latitude. O que há, também, é um preço a pagar por essa liberdade - que vai do insuportável ao insignificante - consoante quem nos governa.
Em Portugal, quando Manuela Ferreira Leite introduz o tema da 'asfixia democrática', tentando colar o Governo de José Sócrates à etiqueta, tem e não tem razão.
Tem razão, porque o Governo de Sócrates, fruto da maioria absoluta, é muito eficaz na asfixia. Não tem razão, porque a asfixia não é um exclusivo de Sócrates; existe e existiu por todo o país.
As pessoas têm medo de falar? Têm! (Quem trabalha num jornal sabe-o perfeitamente). Acham que colocam em risco os seus negócios, empresas ou empregos se fizerem determinadas críticas? É verdade! Os empresários temem perder contratos se forem demasiado cáusticos? Sim!
Porquê? Porque entendem que o poder neste país pode ser usado para fins ínvios. Mas isto é verdade para o Estado central e mais ainda para os governos regionais e autarquias locais. Experimentem ver o que acontece a quem se mete com certos presidentes de câmara...
A verdade é que em Portugal o sentimento de liberdade é tímido e raro. Alguns empresários (Belmiro, por exemplo) dizem o que pensam, apesar de tudo. O mesmo fazem certos políticos. Mas a maioria cala-se. Mesmo na comunicação social vêem-se muitos jornalistas com medo das consequências do que escrevem e dizem. Pessoalmente, sempre actuei com liberdade e penso que ninguém me prejudicou por isso. Sei, também, que ninguém me beneficiou. E este é o outro lado do problema: em Portugal, demasiada gente vive à espera de ser beneficiada, bafejada por um lugarzinho, uma distinção, uma comenda, uma prebenda. Esses são os que se calam! Sempre! Seja Sócrates, seja Durão, seja Santana, seja Cavaco, seja Soares (excluo Guterres, porque penso que ele era diferente, embora o mesmo não possa dizer dos seus ministros). Os únicos que falam são políticos - se for sobre os adversários, claro - e os que nada temem ou porque são assim ou porque nada têm a perder.
Esta atitude geral de chapéu na mão, subserviência, de bovinidade conjugada com o peso excessivo e demasiado poder do Estado, traça-nos o quadro da 'asfixia'.
Seja qual for o Governo que não mude o essencial de certas regras, nada disto melhora. Os mesmos que agora se calam calar-se-ão.
A única forma de quebrar este ciclo é reduzir o poder dos governos e municípios em nomeações, contratos e prebendas. E esperar que nasçam, como estão a nascer, gerações de cidadãos livres.